Jornalista vê muitas curitibas em 100 dias
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de março de 1998
Israel Reinstein 
Arquivo FolhaCem dias entre ruas, pinheiros e rios: Eduardo Fenianos fez um raio X da Curitiba metrópoleO jornalista e urbenauta Eduardo Fenianos, que viajou durante 100 dias por Curitiba, conta que a cidade é como a babushka - boneca russa que quando aberta revela outras com tamanhos e caraterísticas diferentes. Cada uma das bonecas representaria um extrato ou gueto, tendo no rosto o rico e o pobre, desenhados com suas leis e costumes, tradições e contradições. A babushka curitibana ainda teria seu verniz próprio, pincelado pelo crescimento industrial, pelo tráfico de drogas e violência dos assaltos, pela degradação do meio ambiente e por outras virtudes e problemas.
O grande desafio dos próximos anos é conseguir conciliar todas as vertentes, estabelecendo um diálogo capaz de construir uma cidade mais harmônica, avalia Fenianos. Ele acredita que, para isso, Curitiba precisa se conhecer, sair dos cartões postais tradicionais e olhar para outros horizontes e imagens. A cidade pode ser encontrada nos olhos de uma criança de rua ou na imagem bucólica de campos com cabras, que ficam nos subúrbios de Curitiba, filosofa.
Eduardo Fenianos acredita que a discussão desses temas é importante para conceituar a cidade. Para ele, quando se discute Curitiba é preciso definir o que são os conceitos como qualidade de vida e cidade de primeiro mundo, alardeados, muitas vezes, ignorando seu real significado. E, por isso, essas frases são entendidas de formas diferentes, dependendo da pessoa, afirma. A coisa pode ser traduzida mais ou menos assim: para as famílias da periferia, que ganham pouco mais de um salário mínimo, é o bate-papo informal com o vizinho, os jogos de rua das crianças e outras práticas simples do cotidiano que representam o que se chama de qualidade de vida. Esse padrão muda com a classe social. Encontrei nos prédios luxuosos do Champagnat pessoas com rinite, chateadas e irritadas, saudosas do contato com os amigos e a natureza. Mas o urbenauta não esconde que, mesmo feliz, a vida de quem vive na periferia é mais dura. Difícil ignorar: o curitibano que não vive em áreas mais centrais é lembrado apenas em época de eleição.
Memória dos
100 dias vai
virar livro


