Jornalismo em alta velocidade exigia respaldo do presidente
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sábado, 08 de agosto de 2009
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Na segunda metade da década de 70, João Milanez comprou um carrão Dodge, logo substituído por outro maior, uma big banheira preta Ford (Landau) de quatro portas, ar-condicionado. Às vezes com repórter e fotógrafo, o patrão viajava mui confortavelmente no banco de trás, lendo jornal e ouvindo a Rádio Guaíba. O motorista ia de camisa branca engomada e gravata. Um dos motoristas do patrão foi o Sebinho, apelidado pelo implacável Chicão, que fazia a linha de Campo Grande. Punha apelido em todos os colegas de volante, mas não impunemente: por causa das pernas muito compridas, apelidaram-no Chico Cegonha.
A construção da maior hidrelétrica do mundo entrou na rotina da FOLHA e havia liberdade para se incluir o debate sobre as inundações, que fariam desaparecer seis mil pequenas propriedades rurais (100 mil hectares) apenas na margem brasileira e também o Parque de Sete Quedas.
Em outubro de 1975 houve a assinatura do contrato entre Brasil e Paraguai: Assinado o contrato. Vão começar as obras de Itaipu, manchete da FOLHA (07-10-1975). José Pedro Lima, Xuxulim, fotografou. Convidado especial da Itaipu Binacional, Milanez ficara visivelmente aborrecido, durante a solenidade, quando o presidente da empresa, general Costa Cavalcanti, convidou um jornalista brasileiro e um paraguaio para que assinassem na condição de representantes da imprensa. Um assessor de comunicação havia-se antecipado explicando a Milanez porque não fora ele o escolhido; optara-se pelo repórter especializado de O Estado de S. Paulo Rubens Rodrigues dos Santos, também engenheiro e por ser o jornal de âmbito nacional. Representou o Paraguai Alejandro Escobar, do diário ABC, de Assunção, correspondente da France Press.
Outubro de 1978: desvio do curso do Rio Paraná. Amanhã, para Foz do Iguaçu, vão desviar o rio, disse Milanez ao repórter, que fez bico. Só se for de avião. Por causa da crise do petróleo, a velocidade nas rodovias estava limitada a 80 quilômetros; os Fuscas da FOLHA, adaptados para atingir 150, 160, tinham tacógrafo e motorista que excedesse 80 seria posto na rua. Como fazer reportagem em baixa velocidade? O jeito era o repórter mandar o motorista baixar o pé e assumir a responsabilidade. Posso arregaçar?, perguntava o Manoelzinho. Na volta, o repórter pedia o aval do Walmor Macarini, chefe da redação, que assinava sem piscar. O chefe da frota, chamado Afonso, ficava doido. Tanto esbravejou que Walmor achou melhor não mais avalizar. Os repórteres recorreram a Milanez. Funcionou por mais algum tempo, até que o convenceram a tirar o corpo: Não é mais possível.
A programação em Foz do Iguaçu começaria por volta do meio-dia (20-10-1978), seria impossível regressar a Londrina a tempo de revelar filmes e escrever, no mínimo, uma página. Haveria o material das agências, é claro, mas a FOLHA também tinha de assinar a cobertura. Libero a velocidade, resolveu Milanez. Melhor seria não abusar, afinal a rodovia estaria muito congestionada, ponderou o repórter. Então, com o meu carro, vou junto, sentenciou, fazendo uma cara de quem não queria ouvir mais nenhuma contestação.
As solenidades e o desvio do rio, com uma formidável explosão, tiveram a presença dos presidentes do Brasil e do Paraguai, generais Ernesto Geisel e Alfredo Stroessner. Dorico da Silva fotografou muito bem. Deixando Foz do Iguaçu após as 14 horas, a equipe tem 480 quilômetros pela frente. Na metade da viagem, entre Mamborê e Campo Mourão, o carrão passa pelo radar. O motorista diminui a velocidade. Logo adiante está o policial rodoviário fazendo sinal. Sem sapatos e cochilando no banco de trás, Milanez sugere ao repórter justificar a pressa. Melhor o senhor, patrão, tem mais jeito.
O policial informa ao motorista que o carro estava a 160 km por hora, o dobro da velocidade permitida. Baixando o vidro, Milanez interveio. Sou o João Milanez, da Folha de Londrina, me conhece? - o policial fez sinal negativo com a cabeça. E o presidente Geisel, conhece? O policial fez sinal positivo. Aí Milanez explicou o que tinha havido em Foz do Iguaçu e arrematou: O presidente Geisel pediu que a FOLHA publicasse tudo amanhã, por isso estamos com pressa. O policial bateu os calcanhares, fez continência e liberou: Boa viagem!.


