SÃO PAULO - O arcebispo de São Paulo, cardeal dom Cláudio Hummes, é um dos favoritos à sucessão do Papa João Paulo II. Essa é a visão do jornal britânico ''The Sunday Times'', que publicou, ontem, a seguinte reportagem: ''Cardeal brasileiro radical lidera corrida pela sucessão'' (''Radical Brazilian cardinal leads succession race'').
O jornal destaca que Hummes seria o primeiro papa latino-americano. Isso poderia acontecer, segundo a reportagem, ''caso o conclave (reunião de cardeais que vai eleger o novo papa) decida refletir o esforço da igreja no terceiro mundo''.
A escolha de Hummes, no entanto, seria arrojada, continua o jornal, que o classificou como ''conservador no que diz respeito à doutrina da igreja, mas um inconfundível radical em questões sociais''. Ainda segundo a reportagem, Hummes ''é lembrado como membro de um grupo de cardeais que escolheu enfatizar a justiça social''.
Os cardeais vão se reunir hoje, às 10h30 locais (O5H30 de Brasília), na primeira reunião prévia ao Conclave, informou ontem o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro Valls. A reunião será realizada na sala Bolonha do Vaticano, onde será decidida a hora exata para o traslado para a Basílica de São Pedro dos restos mortais do Papa João Paulo II.
O conclave encarregado de designar o próximo Papa é formado por 117 cardeais, com os candidatos à sucessão de João Paulo II representando duas tendências. A primeira deseja um retorno de um papa italiano, depois do tumultuado parêntese polonês que rompeu com uma tradição de quatro séculos.
Candidatos de alto nível intelectual e espiritual justificam esta orientação, que poderia, inclusive, marcar uma etapa de transição. Nesta ótica, a escolha de um papa idoso não seria um obstáculo.
Os seguidores da segunda tendência querem preservar o recente caráter internacional encarnado pela designação de João Paulo II, ou até impulsionar a eleição de um papa oriundo de um país em desenvolvimento. Os partidários desta tendência apóiam os candidatos latino-americanos e asiáticos.
Alguns nomes circulam com mais frequência na imprensa internacional, baseada nestas duas tendências:
DIONIGI TETTAMANZI, arcebispo de Milão, 71 anos. Teólogo, cardeal desde 1998, ele é considerado um moderado e um fiel seguidor de João Paulo II, com quem trabalhou sobre questões como família e bioética. Para lhe demonstrar sua confiança, o Papa o nomeou em julho de 2002 arcebispo de Milão, o maior diocese do mundo com quase cinco milhões de fiéis. Seu ponto fraco é que, ao contrário do poliglota João Paulo II, ele não fala nenhum outro idioma que o italiano e não é atraente para a mídia.
ANGELO SCOLA, patriarca de Veneza, 63 anos. Doutor em teologia e filosofia, cardeal desde 2003, ele está ativamente envolvido no movimento católico, fala várias línguas e expressou recentemente o desejo de acompanhar ''o irreprimível processo de mistura das civilizações''. No entanto, ele seria o candidato italiano do Opus Dei.
CLÁUDIO HUMMES, arcebispo de São Paulo, 70 anos. Franciscano, cardeal desde 2001, ele é considerado um moderado e defende o compromisso da Igreja ao lado dos pobres, mas sem apoiar a Teologia da Libertação. Ele enfrentou firmemente a ditadura militar de 1964 a 1985 abrindo as igrejas às jovens organizações sindicais e lutou contra o crescimento de outras ideologias e práticas religiosas no Brasil.
JORGE MARIO BERGOGLIO, arcebispo de Buenos Aires, 68 anos. Argentino de origem italiana, cardeal desde fevereiro de 2001, ele foi o primeiro jesuíta a se tornar primaz na Argentina. Avesso ao mundanismo, ele não tem carro, utiliza os transportes públicos e desdenhou a suntuosa residência dos arcebispos de Buenos Aires. Bergoglio foi acusado num livro de nada ter feito em relação ao sequestro de dois jovens padres na época da ditadura militar.
DARIO CASTRILLON HOYOS, chefe da Congregação do clero, 75 anos. Cardeal desde 1988, líder de cerca de 400.000 padres no mundo, este colombiano é considerado próximo ao Opus Dei e dos Legionários de Cristo, dois movimentos leigos muito conservadores.
IVAN DIAS, cardeal desde fevereiro de 2001, iniciou em 1965 sua carreira no corpo diplomático do Vaticano, e trabalhou nos países nórdicos, em diversos países africanos, na Coréia do Sul e na Albânia. Próximo a Madre Teresa de Calcutá, personalidade calorosa e carismática, defensor da muitas vezes perseguida comunidade cristã indiana, ele conhece bem o Terceiro Mundo e a Cúria romana.
OSCAR ANDRES RODRIGUEZ MARADIAGA, arcebispo de Tegucigalpa, 62 anos. Cardeal desde 2001, o carismático eclesiástico hondurenho denunciou o neoliberalismo econômico e defende a ''globalização da solidariedade''. Foi um dos artífices do combate impulsionado por João Paulo II para obter um alívio para a dívida dos países pobres por parte do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. É piloto de avião, toca piano, saxofone, órgão e guitarra e fala uma dezena de idiomas. Sua faceta de ''homem do Renascimento'' e sua juventude podem, paradoxalmente, prejudicá-lo diante de seus pares.
TELESPHORE PLACIDUS TOPPO, arcebispo de Ranchi, 65 anos. Cardeal desde outubro de 2003, este prelado, cuja forte personalidade é conhecida na Igreja, preside atualmente a Conferência Episcopal Indiana. Distinguiu-se por um importante trabalho social no estado de Jarkand. Representa a dinâmica comunidade católica indiana, mas sua experiência internacional é limitada.

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