Adentrar à comunidade de João Surá, no município de Adrianópolis, é como voltar no tempo. Fornos de barro, casas de pau-a-pique, farinheiras artesanais e outras ferramentas rudimentares são indícios das tradições dos escravos que outrora viviam naquelas terras.
A comunidade foi certificada pela Fundação Palmares como quilombola no ano passado, mas sua história tem mais de 200 anos. Seus moradores desconfiavam, inconscientemente, da herança dos guerreiros escravos. ''Já se via na cor da gente que era quilombo'', conta Joana de Andrade Pereira, 72 anos, moradora da comunidade. Segundo ela, ao assistir na televisão a novela Escrava Isaura, a situação ficou ainda mais clara: ''Era a mesma história que nossa''.
Quase tudo que é consumido no João Surá é produzido pela própria comunidade. Feijão, arroz, mandioca, açúcar e outras culturas são cultivadas de forma artesanal, apenas para subsistência e sem o uso de defensivos agrícolas.
O conhecimento passa de pai para filho, perpetuando a tradição e os ensinamentos dos antepassados. Dona Joana lembra-se do avô, o primeiro professor da comunidade, que ensinava a escrever usando casca de palmito. ''Só depois é que a gente teve papel e caneta de pena'', recorda. Outra responsável por manter viva a herança quilombola é dona Benedita, 84, que canta as músicas do tempo dos escravos que aprendeu com o pai. ''Foi ela que segurou a história'', conta Sebastião e Andrade, 72, outro morador antigo da comunidade.
Atualmente, vivem em João Surá 36 famílias, mas muitas já abandonaram o local por pressão de fazendeiros ou para trabalhar nas florestas de pinus que existem em abundância na região. Este tipo de cultura, segundo os moradores, avança velozmente sobre as áreas quilombolas. De acordo com Joana, estas árvores envenenam a água e o solo, dificultando a agricultura local.
Outro problema são as precárias condições de saúde na região. De acordo com os moradores, o atendimento odontológico mais próximo fica a 120 quilômetros. Mesmo o posto de saúde existente na comunidade deixa a desejar. ''A médica só vem de 15 em 15 dias'', lamenta Joana.
Apesar destes problemas, João Surá é uma das comunidades quilombolas mais desenvolvidas do Paraná e figura entre as sete que estão sendo avaliadas pela UFPR. (A.A.)

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