João Milanez - A Saga de Um Pioneiro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Estelio Feldman 
Quando o então governador do Paraná Moisés Lupion quis lhe dar terras (uma prática muito comum, na época), João Milanez disse que não queria. E explicou que havia trabalhado a terra desde a mais tenra idade e que quando finalmente a deixou tinha se decidido que jamais voltaria a fazer isto. Lupion então explicou que a terra não era para ele trabalhar, era para negociar. Foi quando João Milanez (muito antes do Papa, como faz questão de lembrar) pôs um ponto final no assunto dizendo: Terra não é para especular, deve ser usada para produzir.
Buscando no mais fundo de sua memória, as primeiras recordações de que Milanez tem consciência datam de quando tinha 6 anos. Foi quando sua mãe morreu. Nascido em Meleiro (SC), já trabalhava na roça, naquele tempo. Fazia muitos trabalhos, inclusive ordenhar vacas. E lembra que foi então que decidiu que não iria ficar na roça a vida inteira.
Nos estudos, não era dos piores. Mas a matemática atrapalhava, lembra. Recorda que uma professora elogiou sua capacidade de assimilação, percebendo ali o cerne do que viria depois. Pois João Milanez tem uma tremenda capacidade de concentração e uma percepção rápida das coisas. Depois de ouvir, com plena atenção, uma palestra - e é um ouvinte fantástico - ele é capaz de expor tudo o que foi explanado, evidenciando percepção e entendimento perfeitos.
Como em Meleiro não havia muitas opções, além do ensino básico, ele acabou aprendendo marcenaria e carpintaria. E continuou na lavoura. Fez de tudo. Foi até jóquei nas corridas de cavalo locais, com o seu animal. Entretanto, o que queria, mesmo, era ir embora, buscar novos horizontes.
Aprovado para o Exército, sentiu que estava ali a grande oportunidade. Só fui aprovado porque não havia muito rigor, ele lembra, informando que era, ainda, a época da Segunda Guerra. Foi designado para servir em Ponta Grossa, Seria seu primeiro contato com o Paraná. E tomou a decisão: iria fazer carreira militar.
Uma vez mais, porém, os fatos conspiraram. Ele teve uma forte congestão e acabou no hospital. Morri!, ele diz. De fato, ficou praticamente morto por dois dias. E permaneceu internado no hospital por 28 dias. Teve transfusão de sangue, recebeu soro. Quando recebeu alta no hospital, também recebeu baixa no Exército.
O sonho da carreira militar foi encerrado. A vontade de deixar a terra, persistiu. Tanto que não voltou a Meleiro. Teve de, mesmo contra a vontade, voltar, mas foi para Criciúma, onde se tornou gerente de uma mina de carvão da qual um de seus irmãos, Pedro, era sócio. Entretanto, a vontade de alçar vôo, de buscar outros rumos, não o deixava.
Em 1947, João Milanez resolveu ir para São Paulo, que já era a grande metrópole brasileira. Tinha a certeza de que lá poderia encontrar emprego, usando inclusive suas habilitações como carpinteiro. Foi então que o destino começou a agir. Conheceu, nos primeiros tempos de Paulicéia, um vendedor de títulos de capitalização que tanto fez que o convenceu a vir para Londrina.
Milanez já tinha ouvido falar de Londrina, ainda em Santa Catarina. A cidade era apontada como um novo eldorado, uma terra que crescia rapidamente. Terra nova, tinha 17 mil habitantes, segundo lembra. Ele veio de trem. Quando chegou, não ficou impressionado com a terra vermelha, com o barro, a lama, a poeira. Era um homem criado no campo, conhecia estas coisas. O que provocou sua admiração foram as lâmpadas nas ruas, fraquinhas, parecendo tomatinhos pendurados nos postes.
Ele chegou e hospedou-se na Pensão Luz, localizada na Rua Benjamin Constant. E conheceu ali um certo Correia Neto, um homem que escrevia bem, dizia que era advogado (Milanez pensa que isto não era verdade, embora Correia vivesse nos círculos jurídicos da cidade) e queria fazer um jornal em Londrina. Já havia muitos, na época, entretanto a terra era cheia de oportunidades. Correia Neto tanto fez que convenceu João Milanez. Em novembro de 1948, os dois empreendedores lançaram, afinal, a Folha de Londrina.
O periódico propunha-se a circular quinzenalmente, o que, porém, por vezes não acontecia. E era impresso nas oficinas do Paraná Jornal, um diário. As coisas começaram a ir tão bem que o Paraná Jornal (acho que por medo da concorrência, lembra Milanez) não quis mais imprimir o jornal do concorrente.
Então Milanez foi a São Paulo, comprou fiado jogos de tipos e o jornal começou a ser composto em sua casa. Foi ali que ele se tornou o Patrão, contratando o primeiro funcionário da Folha, Lourenço Orsi, o Pítia. O jornal era composto em casa e levado para uma gráfica, na Rua Pernambuco. É desta época que vem a história que ele conta de que carregava o jornal nas costas. Havia a montagem e ele levava as páginas da Rua Minas Gerais até a Pernambuco. Mas não era sempre que isso acontecia. Normalmente, as páginas eram levadas de carrocinha.
Foi quando surgiu o primeiro contratempo. Milanez deu o dinheiro para Correia Neto pagar os tipos. O sócio não pagou e também não devolveu. Surgiu o desentendimento e a decisão pela separação. Correia Neto resolveu sair e queria a parte dele. Mas não havia parte nenhuma, a única coisa que o jornal tinha eram os tipos, que não tinham sido pagos. No final, uma decisão salomônica: João Milanez deu uma caneta Schaffer para Correia Neto pela sua parte na Folha. Acabou bem, continuamos amigos, lembra.
Com a saída de Correia Neto, João Milanez encontrou novos sócios, Abdoral Araújo, Fulgêncio Ferreira Neves e Aquiles Pimpão. O jornal crescia. Aí ele comprou a primeira máquina, uma Minerva, capaz de imprimir uma página por vez - quer dizer, um lado da folha por vez. A máquina foi instalada na Rua Duque de Caxias, que se tornou a sede do jornal. A Folha virou bissemanal. Uma vez mais, porém, a sociedade sofreu percalços.
Fulgêncio Ferreira Nevez resolveu se candidatar a um cargo eletivo, deixou a Folha. Milanez então, acertou as coisas com os outros sócios e voltou a ficar só na direção do jornal. Foi então que veio, do Rio de Janeiro, Rafael Lamastra. Político, franco, disposto, tornou-se o redator-chefe do jornal. Milanez adquiriu uma impressora rotoplana (o que atesta como o periódico ia crescendo) e a Folha de Londrina ganhou, afinal, a periodicidade de um jornal, tornando-se diária.
Mas outra vez a política se envolveu: Lamastra saiu para se candidatar a vereador. E foi então que entrou a fazer parte da equipe o jornalista Nilson Rímoli. Nilson, com seu irmão mais velho, João, fazia parte do Paraná Jornal. Com os dois, veio também Carlos da Silva, que havia começado sua carreira como radialista.
Surge o verdadeiro tripé que deu origem à base efetiva da Folha, com a entrada de Geraldo Ferreira, que foi chamado para ser uma espécie de administrador geral. Nilson cuidava da Redação - e estabeleceu uma verdadeira escola de jornalismo - Geraldo era o responsável pela administração e João Milanez dirigia tudo e atendia especificamente a parte comercial.
Milanez destaca que assim como Nilson deu uma estrutura à parte redatorial, concedendo ao jornal uma identidade e uma qualidade que foram cada vez se tornando maiores, Geraldo Ferreira - que morreu no final do mês passado, em Curitiba - deu à empresa uma estrutura organizacional básica.
Era um tempo duro - lembra Milanez - o trabalho intenso, as dificuldades enormes. Falavam que a Folha não pagava direito os seus empregados. Na verdade, Geraldo dava vales. Um dia, os funcionários resolveram fazer greve, reclamando pagamentos corretos. Fomos fazer as contas, vimos que a maioria, embora só recebendo vales, estava devendo. Não houve greve. E aos poucos, Geraldo foi ajeitando as coisas, oficializando o pagamento semanal, que vigorou por muito tempo.
Londrina, um verdadeiro fenômeno, uma metrópole que explodiu no meio da mata, longe das capitais, era um exemplo para todos quantos vieram a fim de construir sua vida. A preocupação de João Milanez era a de fazer o jornal crescer tanto ou mais que a cidade.
Depois da rotoplana, a Folha comprou uma impressora semi-automática. Mas o crescimento exigia mais e a intenção era a de adquirir uma rotativa. Da vontade à ação era um passo só. João Milanez descobriu no Rio de Janeiro uma rotativa para vender, alemã, que era do jornal Diretrizes que havia pertencido ao ex-presidente Epitácio Pessoa. A entrada era de 1.500 cruzeiros, uma fortuna, na época.
Para conseguir o dinheiro, lançou mão do recurso natural à época, a verdadeira mola propulsora do Norte do Paraná: o papagaio. João Milanez fez uma ficha cadastral no Banco do Brasil, contando com o apoio de Abilon de Souza Naves, então diretor do Banco do Brasil (Souza Naves foi depois senador e morreu pouco antes de se lançar candidato ao governo do Estado, com enorme favoritismo) e Artur Santos, também da diretoria do BB.
O gerente da agência local do banco, entretanto, concluiu, na análise da ficha cadastral, que João Milanez estava apertado. Era, lembra, uma situação normal de todos quantos se empenhavam em realizar, por aqui. Se eu não estivesse apertado, não iria precisar pedir dinheiro emprestado, lembra.
Como o gerente informou que iria mandar a informação, mantendo-se neutro na decisão, Milanez resolveu seguir outro caminho. Lançou as famosas assinaturas vitalícias. Vender assinaturas era, na época, o meio costumeiro para conseguir recursos antecipados. Milanez já havia vendido aos milhares. Lembra que vendeu 4.700 assinaturas entre Santo Antônio da Platina (no Norte) e Paranavaí (no Noroeste) e também na linha até Porecatu.


