Jesus, Maria e José em Colombo
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
O motorista Cleber Oliveira, 29, não considera-se das pessoas mais religiosas. Na noite do último sábado, vestido do bíblico José, apontou para esposa e disse: ''Ela, sim, é bastante''. Tatiane Espurio, auxiliar de dentista, 28 anos e grávida de quatro meses, representava Maria. À frente de mais de cem moradores do bairro Jardim Monza, de Colombo, município da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), o casal foi em procissão por 146 metros até a Capela São Miguel Arcanjo. ''O Cleber sofreu um acidente e tem um problema na perna, o que reforça os desafios pelos quais passou José. Tatiane está grávida, tal como Maria aguardava Jesus. A caminhada mostra esse trajeto de dificuldades enfrentado pelos dois'', explica Erico Bratfish, dono da casa de onde partiu a procissão e católico desde que nasceu, há 44 anos.
Erico, além de diretor de uma auto-escola, é o coordenador dos dez grupos de reflexão da comunidade, também conhecidos como grupos de rezas, círculos bíblicos e comunidades de base. Apenas na Paróquia Santa Teresinha de Lisieux, uma das seis de Colombo, são 20 capelas como a São Miguel Arcanjo e 110 grupos de reflexão. Contando Curitiba e região metropolitana são 3 mil.®MDBO¯®MDNM¯ ''De um modo geral, reunimos os vizinhos e durante o ano lemos toda a Bíblia.'' A família de Erico é uma das 13 que participam diretamente do ''Caminheiros de Cristo'', com reuniões às segundas-feiras, cada vez na casa de um dos membros. São encontros com oração, leitura do Evangelho, ''fatos da vida'' - histórias do dia-a-dia - e reflexões a partir de temas que vão de aquecimento global à importância de transformar a comunidade - tudo sugerido pelo livro ''Caminhando'', oferecido pela Arquidiocese de Curitiba. ''O livrinho dá o tema, já vem esquematizado. Falando da caminhada de Jesus, por exemplo, dá para falar da vida'', afirma Erico.
Em dezembro, os encontros deram lugar às oito novenas de Natal realizadas nas residências, em que tem vez textos bíblicos sobre o nascimento de Jesus. ''Éramos nós, o compadre Zé, Isabel (a animadora do grupo), Dona Ermênia, Marlene, Dona Isolda e mais uma senhora que esqueci o nome'', explica Lídia Pauluk, 48, que participa do grupo de reflexão ''Maria de Nazaré'' ao lado do marido, Frederico, 57. ''Nas novenas ficamos com um Jesuzinho por uma semana em casa'', diz enquanto mostra o pequeno personagem do presépio. O nono encontro reuniu os grupos organizados a partir da Capela São Miguel Arcanjo para a procissão seguida de celebração.
Procissão e celebração
A procissão, iniciada às 19h50, aconteceu a luz do dia, com alguns vizinhos curiosos saindo nas janelas para acompanhar a cantoria. ''Não usamos velas por causa do horário de verão'', comenta Eva Ricardo Camilo, 59, a coordenadora da pastoral que organiza os grupos de reflexão em Colombo. Eva é uma das criadoras do ''Nossa Senhora Aparecida'', de 1978, o primeiro a funcionar na São Miguel Arcanjo.
A quadra que separa a casa de Erico do destino é vencida em menos de cinco minutos. Rapidamente, o espaço interno da capela é tomado pelo grupo. O casal vestido de José e Maria vai à frente e acompanha os movimentos do ministro da palavra Sebastião Custodio, 68, que faz as vezes de orador, pois o padre não pôde vir: são quatro para as 20 capelas da comunidade e dois deles estão de férias. ''Será que celebramos o Natal com Cristo ou o da propaganda, da comilança?''.
Passados dez minutos da cerimônia, Maria e José saem de fininho e seguem para a entrada da capela. Lá, são aguardados por nove crianças vestidas de anjinhos. A auxiliar de dentista Tatiane deixa o seu posto de Maria e cede as vestes para Sonia Maria Boita, 42. ''Como ela está grávida, não ia dar conta de ficar segurando o menino'', explica a nova mãe de Cristo. As luzes apagam. Entram José e Maria com o pequeno Jesus no colo - participação de Kauan Venuca Barroso, 50 dias de vida e dois pais orgulhosos -, acompanhados das crianças vestidas de anjos com velas nas mãos. ''Perdi as contas de quantas vezes fiz isso, mas gosto bastante de participar'', comenta a estudante Cecília de Avilar Ferraz, 9, que, pouco depois, assume o pandeiro que acompanha o coral.
''As pessoas não visitam mais os vizinhos. Isso tudo é uma forma não apenas de tratar de religião, mas também desses encontros'', afirma Maria Adelaide Simoni dos Santos, 53, que há oito anos coordena as pastorais da paróquia. ''Os grupos de reflexão são os alicerces das comunidades. É dali que surgem as lideranças e onde se reúnem as famílias'', opina.
A cerimônia tem fim às 21h05, pouco depois de uma hora de seu início. Os presentes dirigem-se ao salão paroquial, onde o coral instala seus instrumentos e volta a tocar. Antes da ceia e da despedida, o grupo canta parabéns pelo aniversário de Jesus.


