Investimentos asseguram mais receita
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de dezembro de 1997
Curitiba 
Algumas simulações acerca do novo ciclo econômico em gestação no Paraná, recentemente elaboradas pelo Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), confirmam a liderança dos ramos integrantes dos complexos metal-mecânico (sobretudo o parque automotivo), agroindustrial e infra-estrutural - e projetam elevações (ainda não totalmente visualizadas) da arrecadação no Estado.
Os empreendimentos infra-estruturais (rodovias, ferrovias, modernização portuária, modernização do sistema de arrecadação de impostos, geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, telecomunicações, sistemas de água e esgoto, entre outros) somada aos projetos diretamente ligados à produção atinge US$ 20 bilhões, no prazo entre um e cinco anos. Como a renda vai crescer, a geração de impostos no Estado terá igual dimensão.
FundamentoEconomista Gilmar Lourenço, do Ipardes: empreendimentos alavancam riqueza e arrecadação de impostos para o Paraná
Mas, de acordo com o economista Gilmar Mendes Lourenço, coordenador do Projeto de Análise Conjuntural do Ipardes, é preciso que o debate sobre a especialização desse processo de transformação seja feito de forma mais concreta e qualificada.
Esses riscos são visíveis a partir da absorção direta, pela Região Metropolitana de Curitiba, de 65% do valor total dos projetos de investimentos privados anunciados entre janeiro de 1995 e agosto de 1997, com predominância do complexo metal-mecânico e especialmente das montadoras de automóveis. Mais tarde, o surgimento de grandes empreendimentos em Londrina, principalmente, deram equilíbrio e acrescentaram subsídios à discussão, reduzindo a relação de dimensionamento dos empreendimentos cotados e confirmados para a RMC.
É importante reconhecer, naturalmente, que o segmento metal-mecânico exibe maior densidade tecnológica, padrão locacional concentrado e menor capacidade de geração de emprego por unidade de capital investido, aliás a grande peculiaridade do padrão tecnológico nesta virada de século, analisa Lourenço.
Em contrapartida, os empreendimentos agroindustriais, alguns projetos na área de bens de consumo não-duráveis ou intermediários - como bebidas, madeira e papel e papelão e as obras de infra-estrutura denotam maior grau de dispersão especial e maior propensão à criação de postos de trabalho (diretos e indiretos).
EstímuloO analista explica que essa tendência natural de interiorização de alguns ramos de atividade resulta não apenas da disponibilidade de matéria-prima, mas de atuação regionalizada das cooperativas e da perspectiva de constituição e/ou ampliação de grandes mercados regionais integrados com o interior de São Paulo ou com os países membros do Mercosul. Essa tendência está também condicionada à superação de um certo marasmo predominante em algumas áreas e ao resgate de uma vontade industrializante, afirma.
Lourenço observa que, em paralelo, a ação indutora acertada do governo estadual vem estimulando a formação e a consolidação de certos pólos regionais com a instalação de algumas empresas-âncoras, a exemplo da Tafisa no município de Piên, da Dagranja em União da Vitória, da Siemens em Irati, da Casa Blanca Forest na Lapa, e da têxteis Covolan, Acetatos Argentinos e da Malharia Iracema em Prudentopólis.
Além delas, a expressiva força personificada por pelo menos três grandes empresas, a Dixie-Toga, que fabrica copos descartáveis e embalagens, a Kumho Tires, indústria coreana de pneus, e a Metalúrgica Beta-Sul, em Londrina, determinará definitivamente o fortalecimento do parque industrial de Londrina e, por extensão, da região Norte e de todo o Estado - aponta o analista.
Para se ter uma idéia de dimensão multiplicadora de iniciativas como essas, basta verificar que o empreendimento da Casa Blanca, na cidade da Lapa, deve gerar mais de 17 mil novos postos de trabalho (entre diretos e indiretos), enquanto Dixie, Beta e Kumho estão investindo mais de US$ 255 milhões em Londrina, observa Lourenço. Apenas Dixie e Beta vão gerar R$ 19 milhões de ICMS por ano.
Ademais - acrescenta - um grupo formado por empresários brasileiros, canadenses e alemães, adquiriu recentemente 70% do estoque de reservas florestais da empresa paranaense Trombini Papel de Celulose, para fazer frente à necessidade de produção de 340 mil metros cúbicos de painéis de lâmina de madeira orientada por ano.
PolarizaçãoO analista aponta que sob uma ótica macroeconômica, é bastante provável a conformação de um parque capital-intensivo numa faixa territorialmente polarizada por Curitiba, e de uma dinâmica mais dependente das inversões infra-estruturais e agroindustriais no restante do Estado. Portanto, o crescimento econômico prospectivo da Região Metropolitana de Curitiba deve ser determinado pela variável investimento, enquanto a evolução do interior estará ligada à ampliação do emprego e da renda, observa Lourenço.
Essa hipótese - aponta o analista do Ipardes - fica mais clara quando se observam algumas inferências feitas a partir de dados brutos disponíveis em estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), resultando num coeficiente amplo de demanda de emprego indireto para cada posto de trabalho criado diretamente.
Segundo Lourenço, por esse exercício, destaca-se o agrobusiness, alcançando índice 66 para óleos vegetais, 36 para laticínios, 24 para abate de animais e 22 para fabricação de açúcar. O complexo automotivo registra coeficiente 19 para automóveis, ônibus e caminhões e 10 para peças - isso, naturalmente, sem contar o incremento que será agregado com a efetiva entrada em funcionamento das montadoras de automóveis.
Lourenço diz que não deixa de ser uma constatação interessante no momento em que os resultados da contagem da população, realizada pelo IBGE, referentes a 1996, destacam, para o período 1991-96, a combinação entre uma reversão do fluxo migratório ocorrido nos anos 70 e 80 do Paraná em direção às regiões de fronteira agrícola e uma acentuação da concentração na RMC e em algumas cidades-pólo. Esse último aspecto é consequência da continuidade da migração campo-cidade, impulsionada pela fragilização das atividades rurais, em decorrência da falta de uma política agrícola com horizonte de longo prazo, traduz, observando que de qualquer forma o ciclo gera impostos e riquezas.
O mais gritante, porém, é a enorme margem potencial de liberação de mão-de-obra do meio rural no Estado, fruto também da irreversibilidade da mecanização das colheitas de cana-de-açúcar e algodão. Segundo dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), a população agrícola dos Estados Unidos, França e Argentina representa, respectivamente, 2,9%, 3,7% e 10,8% do contingente total, contra 17,9% no Brasil e 22,1% do Paraná.


