O Volkswagen Fusca 1962 de Alfredo Mazuroski, 60, era movido a gás. A botijão de gás. Quando ele passava em uma blitz da polícia, para disfarçar, mudava para a opção gasolina. "Não economizava, não. Era mesmo pela vontade de inventar coisas diferentes", diz. Sua atividade criativa intensificou-se desde a aposentadoria, em 1995; antes, trabalhou em uma indústria de malas, em um escritório de contabilidade - tema que estudou no Ensino Médio - e, por 25 anos, Alfredo foi dono de uma fábrica de móveis.
O quê de Professor Pardal tem raízes familiares. Nos anos 1950, quando a família morava à beira do Rio Barigüi ao lado de onde hoje é o Terminal do Fazendinha, Silvestre, seu pai, com a ajuda de Albino, o irmão mais velho, construíram uma roda d'água. "Funcionava que era uma beleza. Eles eram os únicos moradores da região que tinham luz. O resto era tudo a base de querosene", conta Edevaldo Mazuroski, 58, primo de Alfredo.
Ainda que não seja todo mundo que tenha um pai que represa um rio para obter energia elétrica para a própria residência, Alfredo lembra que as invenções de Albino foram poucas. A outra que recorda é uma trava especial, a qual, certa feita, impediu um ladrão de galinhas de entrar no galinheiro da propriedade. As margens do Rio Barigüi, onde Alfredo pescava e também aprendeu a nadar, foram palco de suas primeiras criações. Além de carrinhos construídos com latas de azeite, aos oito fez seus primeiros alçapões, gaiolas com armadilha para pegar passarinhos.
Hoje, trata os sabiás, pardais e canários-terra que pousam no quintal com a quirera produzida por mais uma de suas invenções. Fez do torno mecânico, da oficina nos fundos de casa, um moedor de milho adaptado. No mesmo jardim, estão outras de suas estripulias. Ainda que Alfredo não tenha estudado permacultura, ciência que trata de ambientes sustentáveis, instalou dois tambores de 80 litros para fermentar lixo orgânico. Em um deles, um sistema de válvulas, feito com canos e uma bolinha de mouse, retira o líquido utilizado para nutrir as plantas de sua horta.
A criação mais valorizada por seus três filhos, porém, é a cisterna. Walter, 23, Lilian, 25, e Daniel, 26, ressaltam o sistema que guarda a água da chuva em duas caixas d'água. A menor, de 320 litros, alimenta a descarga de um dos banheiros; a maior, de 1500, é utilizada para lavar o carro e a calçada. Para esta última atividade, ele comprou uma enceradeira, a qual pagou R$ 5 em um ferro-velho. Colocou fibra de vidro ao redor, uma placa metálica embaixo, onde acoplou quatro escovas de lavar roupa. Quando ele lava as calçadas da casa na Rua Carlos Klemtz, no bairro da Fazendinha, com a invenção, leva um reservatório no ombro, com água e sabão em pó, que solta a mistura aos poucos por um pequeno cano, dos utilizados para controlar o volume de soro nos hospitais.
Na semana passada, finalizou sua mais recente criação: um pegador de limões. "Elas não têm nome e nem patente", explica Grace Mazuroski, 55, a mulher. Ela dá corda, comemora e também se utiliza das criações do marido. Quando reclamou que não conseguia ver televisão ao deitar-se de lado em sua cama, Alfredo foi ao ferro-velho em busca de uma solução. De lá, trouxe um motor de cadeira de dentista. Reformado pelas suas mãos, foi adaptado e, embaixo da cama, passou a ser uma geringonça para levantar a parte de cima do colchão.
Em uma época em que eles não tinham controle remoto em casa, passou fios por debaixo da cama e criou um pequeno painel na cabeceira. Os botões não apenas mudavam os canais e o volume como acionavam um dispositivo para a abertura das portas do armário em que a televisão ficava. "Não consigo ficar sem fazer nada. O tempo voa quando estou criando." De acordo com Grace, enquanto Alfredo não termina, não pára.

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