Invasores noturnos
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Luiza Xavier<br>Equipe da Folha 
Após concluir uma reforma que durou três meses a artista plástica Karen Tortato teve uma surpresa desagradável ao voltar para casa: descobriu que um grupo de gambás estava ocupando o forro do sobrado em que mora, no Bom Retiro. Além do odor característico, esses animais de hábitos noturnos têm perturbado muitos moradores da Capital com a sujeira e a bagunça que fazem por onde passam.
Eles abrem os sacos de lixo, espalham tudo, comem os pássaros que vivem no quintal. Estão se comportando como ratazanas, estão virando uma praga, reclama ela, que já passou madrugadas em claro por causa do barulho provocado pelos animais. Toda noite eles aparecem. Há cinco ou seis anos, quando minha avó morava aqui, ela também ouvia os gambás, mas não era tão freqüente, acrescenta Karen.
A artista plástica diz ter a sensação de que a situação está ficando fora de controle. Embora tal argumento não seja reconhecido pelos órgãos oficiais do município, a estatística apurada pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), a pedido da Reportagem da FOLHA, indica um aumento de 114,2% no número de gambás recolhidos em Curitiba e região nos últimos quatro anos.
Localizado em Tijucas do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, o centro é manntido pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e recebe animais que são encaminhados pela Polícia Ambiental, pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Durante o ano de 2004 foram entregues ao Cetas 28 gambás, enquanto no ano passado o centro recebeu 60 desses animais. A maioria morre, pois chega aqui em péssimas condições. Eles são feridos por ataques de cães ou atropelados, diz a médica veterinária Graziele Sorezine, coordenadora do Cetas.
De acordo com o Batalhão de Polícia Ambiental Força Verde, que realiza a captura de animais silvestres em áreas urbanas, somente nas primeiras semanas de 2008 foram capturados, em Curitiba e região, 79 animais. Em 2007, foram
681 capturas. No topo da lista estão os gambás.
A artista plástica Karen Tortato também é fiscal voluntária da Sociedade Protetora dos Animais e, ao ser obrigada a conviver com os gambás, decidiu pesquisar o comportamento deles. Ela concluiu que esses animais estão buscando refúgios nos quintais e nas casas por falta de alimentos em seu habitat, as muitas áreas verdes que circundam a Cidade. Além do Bom Retiro, bairros como Pilarzinho, Vista Alegre das Mercês e Santa Felicidade costumam atrair esses visitantes indesejados.
Esse fato é mesmo decorrência do aumento da urbanização e conseqüência da diminuição das áreas verdes, confirma a médica veterinária Eunice de Souza, coordenadora do núcleo de fauna do Ibama no Paraná. O órgão é o responsável pela fiscalização de espécies ameaçadas e pelo trânsito de animais silvestres, entre outras funções,
Segundo a analista ambiental, o gambá, animal silvestre da fauna nativa, causa maior transtorno à população pelo fato de se reproduzir rapidamente até 20 filhotes por ano e de pertencer a um grupo que se adapta facilmente ao convívio humano. Outras espécies, como pombos, morcegos, lagartas e escorpiões podem transmitir doenças graves. Porém, a população não vê essas espécies com tanta freqüência. Por causa do mau-cheiro e do barulho, o gambá incomoda muito mais, observa Eunice.


