Quando Mara Gabrilli inicia a entrevista dizendo ser uma pessoa dependente da tecnologia, a primeira impressão é de que se trata de uma frase clichê. Afinal, quem nos dias atuais também não é? Mas essa sensação muda um segundo depois. A relação dela com o mundo hi-tech é diferente por um simples fato: Mara é tetraplégica. Tecnologia, para ela, está no cobertor elétrico que a aquece, na cadeira de rodas que consegue fazê-la ficar em pé, nos exercícios de eletroestimulação que permitem a ela realizar contração muscular de forma artificial. ''Ela é muito importante para mim porque, além de me dar autonomia, possibilita muitas descobertas'', diz.
Sem mobilidade do pescoço para baixo desde um acidente de carro em 1994, nesses últimos 12 anos ela vem dividindo suas descobertas com outras pessoas por meio de sua coluna na revista ''TPM'' e a Organização não-governamental (ONG) Projeto Próximo Passo. Essa última promove a inclusão social de portadores de deficiência física e a pesquisa para a cura de paralisias.
O que Mara quer mostrar é que é possível, sim, levar uma vida normal mesmo tendo alguma dificuldade não prevista pelo caminho. A sua forma de encarar a paralisia é a de que um desafio a tornou ainda mais forte. Ela diz que, com a ajuda da tecnologia, consegue fazer várias coisas sozinhas. Por isso, ela costuma brincar que a sua vida é super ''plugged''. Quase tudo em sua rotina depende de energia elétrica, começando pela sua casa. Para chegar ao seu quarto, ela usa um elevador. Tem uma cama que se movimenta e até consegue mudá-la de posição. ''Se acabar a luz, tenho que dormir no chão'', ri.
Desde que sofreu o acidente, Mara sente muito frio. Em seu quarto não falta um aquecedor central, lençóis elétricos e até um microondas para esquentar bolsas de água quente. Esse conforto criou uma certa dependência. Enquanto posava para as lentes do fotógrafo Paulo Pinto, Mara não parava de bater os dentes. Quando ela viaja e se vê longe do aquecedor e do cobertor elétrico, logo providencia uma estrutura parecida com a de sua casa.
Um ano depois do acidente, Mara tinha um desejo: queria independência e sonhava em morar sozinha. Ao retornar ao Brasil, após meses de reabilitação nos Estados Unidos, ela trouxe uma novidade vinda lá de fora: o Francesco. Não, não era um namorado importado, mas o apelido de uma caixinha eletrônica que funcionava por comando de voz e ligava-se a vários equipamentos eletrônicos, como a TV e o telefone.
Deitada, por comando de voz, ela conseguia levantar e deitar o encosto da cama, acender e apagar a luz e ligar a televisão. O destino do Francesco foi trágico: como tinha muita coisa conectada nele ao mesmo tempo, houve um curto-circuito e o equipamento pegou fogo.
Mara sempre gostou de escrever e acha isso muito pessoal. Em seu site há várias imagens de diários escritos por ela quando menina. Mesmo sem poder mexer as mãos, ela deu um jeito para manter esse hábito. Nos primeiros anos como tetraplégica, inventou uma maneira nada ortodoxa de digitar: com uma vareta na boca, apertava tecla por tecla do teclado. O resultado da brincadeira foi alguns dentes tortos, logo corrigidos com um aparelho ortodôntico.
Depois que passou a escrever para a revista TPM, comprou um software com comando de voz, que jogava em formato de texto para a tela do micro o que Mara ditava. Mais uma vez, a experiência não deu certo. ''O programa era muito lerdo e errava demais'', diz. Agora, quando não dita o texto para outra pessoa, ela mesmo digita. Como assim? Em seu quarto há um sistema de molas que permite que ela fique em várias posições na hora de teclar.
Uma pessoa a ajuda a posicionar os seus braços corretamente e ela fica lá, sem pressa, catando milho, como gosta de dizer. ''Se você for fazer uma avaliação, o que eu tenho? Tem gente que quebra o dedo, eu quebrei o pescoço. Não tenho nada de doente e só tenho um problema: não poder me mexer.''

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