"As instituições de conhecimento têm que se unir à indústria, caso contrário o conhecimento não chega à sociedade e não gera benefício", defende o reitor da Positivo José Pio Martins
"As instituições de conhecimento têm que se unir à indústria, caso contrário o conhecimento não chega à sociedade e não gera benefício", defende o reitor da Positivo José Pio Martins | Foto: Fotos: Divulgação



Ensinar os alunos, produzir conhecimento por meio de pesquisa acadêmica e levar os resultados à sociedade. Resumidamente, este é o tripé sobre o qual está alicerçado o ensino superior no Brasil. Entretanto, por fatores culturais e falta de investimento, a pesquisa – que aproximaria as instituições de ensino superior (IES) do setor produtivo e redundaria em melhorias para a sociedade – ainda engatinha. Professores ouvidos pela FOLHA reconhecem que há centros de excelência no Brasil – universidades que formam parcerias e apresentam importantes inovações –, mas, de maneira geral, o resultado é muito ruim.

"A absoluta maioria das IES trabalha prioritariamente com ensino – temos 8 milhões de alunos entre educação presencial e a distância", afirma o economista e reitor da Universidade Positivo José Pio Martins, lembrando que legalmente faculdades são praticamente dispensadas de fazer pesquisa e podem focar unicamente no ensino. Já as universidades e centros universitários têm obrigação de manter cursos de mestrado e doutorado, onde as pesquisas são fundamentais. "A pesquisa que existe é basicamente nas universidades estatais e nas privadas."

O professor explica que a inovação depende do setor produtivo já que qualquer produto precisará ser fabricado por uma empresa. "As instituições de conhecimento, seja universidade seja órgão de pesquisa, têm que se unir à indústria, caso contrário o conhecimento não chega à sociedade e não gera benefício", defende. "Pode haver um avanço surpreendente em termos de informática, mas alguém tem que fabricar o computador, tem que fabricar o software."

A reitora da UEL Berenice Quinzani Jordão defende a divisão dos projetos com parte dos recursos sendo destinados às pesquisas básicas e outra às pesquisas aplicadas
A reitora da UEL Berenice Quinzani Jordão defende a divisão dos projetos com parte dos recursos sendo destinados às pesquisas básicas e outra às pesquisas aplicadas



PRECONCEITO
Para Martins, um dos problemas é o preconceito por parte de grupos de professores e pesquisadores que se resume na seguinte frase, segundo ele: "Universidade não deve educar para o mercado". E prossegue: "As universidades, especialmente as estatais, foram dominadas pela esquerda e a esquerda tem bronca de capitalismo, bronca de empresário e criou-se essa ideia de que a universidade não deve formar para o mercado. Entretanto, todo aluno que entra na universidade precisa desesperadamente aprender alguma coisa, ganhar o diploma e trabalhar para sobreviver e sustentar sua família", afirma. "As universidades privadas têm um pouco mais de flexibilidade para parcerias com o setor produtivo."

O coordenador da Agência de Inovação da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Carlos Itsuo Yamamoto, também tem avaliação semelhante sobre o ambiente acadêmico. Para ele, prevalece nas estatais um "discurso pernicioso": "Em universidade pública, principalmente, existe aquele discurso de que se você está trabalhando com a indústria você está se vendendo, se prostituindo, mas não enxergam que o dinheiro público que vem foi gerado pelas próprias empresas."

Além do preconceito, Yamamoto constata que a maioria dos pesquisadores tem preferência por pesquisa básica, considerada "menos trabalhosa" que as pesquisas direcionadas ao mercado. "Com a empresa, o tempo para desenvolvimento do projeto é outro e os prazos são mais curtos; a cobrança é diferente; a forma de conversar é outra, o que deixa esses pesquisadores desconfortáveis", descreve. "O dinheiro de pesquisa básica é fácil de usar porque você não tem o compromisso com o resultado, com o retorno do investimento; ao terminar o projeto, faz-se o relatório e acabou o compromisso. Se deu certo, ótimo; se não deu certo, também é um resultado científico e serve para que outro não vá repetir. É cômodo. Agora, com a iniciativa privada, não", compara.

DIVISÃO ENTRE PROJETOS
A reitora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Berenice Quinzani Jordão, defende que haja uma divisão entre os projetos de pesquisa, sendo uma parte dos recursos destinada às pesquisas básicas e outra, às pesquisas aplicadas. "Não pensamos nunca na totalidade da pesquisa estar sendo aplicada porque o conhecimento depende de novas ideias, novas experimentações, novo conhecimento sendo incorporado mesmo dentro de setores sem aplicabilidade imediata."

Jordão ressalta que muitas vezes a agenda de pesquisa é uma, mais longa, e a de mercado é outra, quase imediatista. "Obviamente, num momento, o que é necessário é que o conhecimento seja revertido em inovação e não é a universidade que vai gerar inovação, é a empresa."

A reitora concorda que a regulamentação do Marco Civil da Ciência, Tecnologia e Inovação representou um "grande avanço" no sentido de propiciar maior interação entre os setores público e privado e amparo legal, mas faz uma ressalva. "O que não podemos perder de vista é que a universidade pública continue sendo um grande celeiro de pessoas e de cabeças e de produção cujo resultado seja público."

EXEMPLO AMERICANO
Tanto o reitor da Positivo quanto o diretor da Agência de Inovação asseguram que em outros países, como Estados Unidos e Canadá, não há distanciamento entre universidade e indústria. "Se compararmos o Brasil com o resto do mundo, ainda estamos muito longe de ter uma aproximação entre universidades e setor produtivo, que é no final das contas o destinatário de todo o conhecimento para gerar alguma coisa a favor do ser humano, seja um bem material seja um serviço", diz Martins. "Se não existir conexão, fica uma coisa isolada, uma brincadeira em laboratório de universidade, sem utilidade."

A exemplo do que considera Martins, Yamamoto também observa outro cenário nos Estados Unidos. "Lá as empresas investem pesadamente nas universidades". A cultura científica prevalece até entre pequenos empresários. "O empresário de pequeno porte procura a universidade para resolver problemas de sua empresa, apresentar inovações e em 15, 20 dias a universidade oferece uma solução."

O reitor da Positivo comenta, ainda, que ao contrário dos EUA, no Brasil, "a absoluta maioria das empresas não pesquisa nada". "Se você entrar em cem fábricas de camisa, 98 não pesquisam nada. Eventualmente, duas pesquisam tecidos mais finos ou melhorias para a qualidade do algodão, resistência do fio, fazem pesquisas que não têm nada a ver com a produção cotidiana", lamenta.

Para ele, este cenário de investigação científica – tão tradicional nos Estados Unidos – faz com que "quase tudo o que é inventado no planeta passe pelos Estados Unidos". "A cultura da investigação científica entranhada é muito forte, está na cabeça de todo mundo. De cada cem patentes que o Japão utiliza, 60 são dos EUA", revela o reitor. "No Brasil, porém, temos impedimentos de natureza cultural, civilizacional, moral, social, legal, estatal e desconfiança dos próprios empresários nas instituições, também, esse é preço do Brasil."

Martins pontua, ainda, que apesar do número de pesquisas ser expressivo, sob certo ponto de vista, o volume ainda é "muito pouco em relação ao tamanho do País". "Um mundaréu de coisas boas foi feito aqui, entretanto, nada de altamente relevante. Se você olhar à sua volta - a luz, a TV, o computador, o rádio, o telefone – nada do que é realmente relevante foi feito aqui. É terrível." (Colaborou Simoni Saris)

Queda de investimentos em ciência e tecnologia

Além da direção executiva da Agência de Inovação da UFPR, o professor Carlos Itsuo Yamamoto, doutor em engenharia química, é coordenador do único laboratório certificado da UFPR. Com esta experiência, ele explica que até 2012 havia "dinheiro fácil" para pesquisa básica: bastava o professor responsável apresentar o projeto e a verba era liberada. Partia-se para a execução. "A pesquisa básica é cara; não se sabe se vai chegar a um resultado, se vai dar certo, se vai ser possível colocar o produto no mercado." A pesquisa básica precede a pesquisa tecnológica, voltada para determinado fim.

Segundo ele, por custar caro, as empresas não investem nesse tipo de pesquisa. "A partir do momento que se vê um potencial nessa pesquisa, é que se abre a possibilidade de fazer parceria com empresas públicas e privadas e para que se chegue num produto que vai ser comercializado: um medicamento, um dispositivo eletrônico, um meio de transporte, que as empresas vão explorar e poder gerar emprego e bem-estar para sociedade." Por isso, o professor rechaça qualquer oportunismo das empresas já que o investimento na fase posterior gera um círculo virtuoso. "A partir do momento que as empresas entram na pesquisa e acabam financiando a finalização para chegar numa patente e depois isso ser explorado, vai gerar empregos, impostos, que vão voltar para o governo financiar."

Entretanto, com os cortes orçamentários dos últimos últimos anos para ciência e tecnologia, o professor acredita que as universidades terão de achar novas fontes de financiamento, especialmente, junto à iniciativa privada. Recentemente, o governo publicou decreto que regulamenta o Marco Civil da Ciência, Tecnologia e Inovação (lei 13.243/2016), destravando parcerias entre universidades e iniciativa privada. "O governo está adotando o modelo americano de financiamento de pesquisa e estimulando interação maior com a iniciativa privada e com empresas governamentais para reduzir dinheiro investido em pesquisa básica", analisa.

Porém, o temor do professor é justamente o fato de que as universidades não estão preparadas para esta interação, mas, mesmo assim, terão que começar a procurar as empresas "porque o dinheiro governamental está escasso". Um dos pontos positivos é que o decreto "limpou" os entraves legais às parcerias. "Agora precisamos das mudanças culturais porque não se resolve as coisas com uma lei, com uma canetada."

Para a produção científica mais efetiva, o professor sugere "primeiro uma mudança cultural". "Empresas, pesquisadores e o governo devem entender que não existe dinheiro fácil. Há laboratórios que estão definhando por falta de manutenção e se os coordenadores desses grupos de pesquisa não começarem a mudar o pensamento, o trabalho vai afundar."

INCENTIVOS
Yamamoto menciona a falta de incentivos para a pesquisa, lembrando que o salário de professores que desenvolvem pesquisa é muito próximo daqueles que apenas lecionam. "Prevalece um pensamento: se eu tiver dando minhas aulas, cumprindo minhas obrigações mínimas, vou receber um salário praticamente igual àquele que também dá aula, mas faz pesquisa, faz relatório, publica artigo. É muito fácil falar: "Eu não vou me vender para a iniciativa privada porque eu tenho princípio e blá-blá-blá...". Para ele, esta é uma "desculpa para não avançar, para não se comprometer com resultados, com o governo e com a sociedade, que está precisando de um aporte tecnológico". "Seria necessário mecanismos para um complemento salarial ou um alívio na carga horária didática para aqueles que realmente querem tocar pesquisa que gere resultado. É o mínimo de ambiente justo."

A professora da Ebape/FGV (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas), Fátima Bayma, demonstra mais otimismo, afirmando que especialmente "as universidades federais e as que estão na vanguarda têm contribuído com pesquisa, se aproximado de empresas, de agências de fomento". Para ela, o principal entrave é o corte de recursos e falta de incentivos dentro das próprias universidades. "Vejo como pontos centrais da discussão a necessidade de valorização, de estímulo, para que se busque essas parcerias, que, neste momento de escassez de recursos públicos, são fundamentais."

Além disso, seria necessário incentivar os próprios pesquisadores, reduzindo o tempo em sala de aula e permitindo maior dedicação aos projeto de pesquisa. "Não vejo que é uma questão de cultura, de concepção; acho que é em função desta dificuldade de se aproximar (com empresas) e de incentivar, de valorizar os pesquisadores", opina.

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