Infidelidade já compõe universo feminino
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sábado, 14 de outubro de 2006
Ciça Vallerio<br> Agência Estado 
São Paulo - As mulheres não chegaram aos mesmos índices masculinos. Mas, pelo jeito, caminham para o empate técnico no quesito infidelidade. É o que mostra, por exemplo, uma pesquisa realizada pela antropóloga carioca Mirian Goldenberg. Entre os cerca de 1.300 entrevistados da classe média carioca, com nível universitário, 60% dos homens responderam que já foram infiéis e 47% das mulheres confessaram já ter ''pulado a cerca''.
Os dados fazem parte do livro que será lançado em novembro, no qual Mirian fala da infidelidade, assunto que estuda há quase duas décadas e que já foi tratado em sua publicação anterior - ''Ser Homem, Ser Mulher'' (Editora Record). ''Antigamente, as relações extraconjugais eram um privilégio masculino'', observa a antropóloga e professora de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. ''Hoje, os números estão próximos. Mas é no discurso entre homens e mulheres que aparecem as diferenças.''
Dá para entender o porquê. Eles justificam suas puladas de cerca de forma simples: são incapazes de controlar sua índole. Acreditam que a tal ''natureza masculina'' os deixa propensos a terem várias parceiras, portanto, a serem infiéis. Uma crendice popular, reforçada culturalmente, claro. Já as mulheres apontam problemas com seus cônjuges para justificar as relações extraconjugais.
''Enquanto o homem acredita que a infidelidade faz parte de sua formação, a mulher adota o discurso de vítima da dominação masculina'', avalia Mirian. ''Ela não assume simplesmente o seu próprio desejo, mas culpa o homem por tê-lo traído, como se ele a empurrasse, a forçasse para tal situação. Isso revela uma atitude de submissão, apesar de hoje ela exercer a sua sexualidade de maneira mais livre.''
A publicitária Clarice (nome fictício), de 39 anos, casada há 17 e mãe de duas meninas, mantém relações extraconjugais. Gosta da companhia de seu marido, mas vai em busca da paixão, do frio na barriga, da emoção da conquista. Sensações que simplesmente desaparecem durante os anos de convívio a dois. ''Sou movida a paixão, é o que me dá energia, alto-astral, faz eu me sentir desejada e feliz.''
Segundo pesquisa realizada pela psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, o maior número de casos de infidelidade feminina ocorre por volta dos 40 anos. É nesse momento que as mulheres estão mais resolvidas sexualmente e profissionalmente e, por isso mesmo, estão mais interessantes, como observa Carmita. ''Geralmente, elas já tiveram filhos e sentem que cumpriram o papel materno no casamento, que está desgastado, cheio de obrigações. E encontram na infidelidade uma maneira de fugir da rotina.''
O ápice da infidelidade masculina, por sua vez, acontece após os 40 anos, quando o homem já se estabeleceu no trabalho e se preocupa menos com a ascensão profissional. Por isso, sobra mais tempo e dinheiro para ter outros relacionamentos.


