Ninguém estranhou a indicação da irmã Elisângela Teodoro, de 27 anos, como vice-diretora do Colégio Bom Jesus Santo Antônio, em Rolândia, (25 km a oeste de Londrina). Afinal, o colégio é administrado pela Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus. Mas, quando foi anunciado que ela seria também a professora de caratê, a surpresa foi geral. ''Achei que ela ia dar aula de religião ou só cuidar do colégio'', confessa a estudante Aisla Luana Ramos, de 11 anos. ''Quando disse que era professora de caratê, achei que era brincadeira, foi um choque.''
Natural de Cornélio Procópio, a irmã mudou-se cedo para Curitiba. Mas, nessa época, a vida religiosa passava longe de seus sonhos, apesar do catolicismo, da frequência às missas dominicais e do curso de Ciências Religiosas, que fazia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). A paixão era a bem sucedida carreira como carateca.
Com 15 anos, ela recebeu a faixa preta (categoria superior nessa arte japonesa, que tem como princípio a busca do caminho para o desenvolvimento espiritual). Chegou a participar de seletiva para o campeonato mundial infanto-juvenil em 2000. Mas, aos 19 anos, um encontro inusitado com uma irmã franciscana na Paróquia Santo Antônio Maria Claret, no Bairro Boqueirão, em Curitiba, alterou definitivamente sua vida.
Contato com Deus
''Senti algo muito próprio'', relembra. A decisão de se tornar religiosa foi tomada na hora. Terminou os estudos na faculdade e entrou na Congregação Franciscana do Coração de Jesus. Em 2003, ela viajou a Roma, na Itália, para fazer o noviciado - período de experiência inicial da vida religiosa. Foram três anos de estudo religioso e uma comemoração particular: suas superioras concederam-lhe a licença para que tirasse o hábito, vestisse o quimono e treinasse caratê dentro do convento. ''Me encontrei nisso''.
Segundo irmã Elisângela, não há divergência entre as duas atividades que assumiu. ''No caratê, a pessoa vê que há equilíbrio mental, emocional e psíquico, enquanto na vida religiosa também é preciso meditação'', afirma. ''O caratê é um esporte oriental, que busca o equilíbrio interior e pode colocar a pessoa em contato com Deus''.
Aisla está entre as cerca de 50 crianças e adolescentes que iniciaram, neste ano, o projeto de caratê instituído pela freira. ''A irmã é muito boa, excelente'', elogia. ''Tinha a impressão de que o caratê era uma luta agressiva, mas a irmã mostrou que é para a defesa e que usa muita concentração.''
Mateus Moraes Silva, de 12 anos, também é só elogios para a freira. ''É diferente com a irmã; ela é sábia e calma''. Para Vinícius Vanzela de Souza, de 13 anos, as aulas no colégio chegaram na hora em que o interesse pelo caratê estava em alta. ''Quando ela chegou, todo mundo ficava comentando que era faixa preta em caratê'', diz. ''Foi bom ela ter começado a dar aulas. É bem diferente de tudo''.
Autorização especial
Na família da irmã Elisângela, todos são caratecas: o pai, a mãe e o irmão. A paixão pelo quimono está no sangue, tanto é que a freira não consegue ficar sem treinar. O caratê já faz parte da sua rotina. Por isso, não foi nada fácil para ela quando precisou fazer o noviciado em Roma.
''No início, eu treinava sozinha. Vez ou outra acabava quebrando alguma coisa no convento com meus golpes. Depois, comecei a contar com a ajuda de outras irmãs, que eram as 'cobaias' para os meus movimentos. Dessa forma, a superiora viu que eu tinha muita energia e precisava do caratê'', relembra.
De uma ordem religiosa que não permite o uso de qualquer outro traje que não seja o hábito, ela conta com uma autorização especial de suas superioras na Itália para usar o quimono. Há também uma autorização para que ela faça suas orações em horários diferentes das companheiras, possibilitando, dessa forma, que possa dar suas aulas da arte marcial. ''Levo o caratê muito a sério, como uma profissão'', ressalta a irmã.
Questionada se pretende voltar a competir, a religiosa não descarta essa hipótese e diz que está treinando para tal. Enquanto isso, por estar entre as melhores caratecas do Estado, ela atua como árbitra no Campeonato Paranaense de Caratê. (Colaborou Wilhan Santin)

mockup