ÍNDIOS NA BERLINDA - Mendicância ameaça cultura e luta pela terra de caingangues
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domingo, 29 de janeiro de 2006
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Índios com os dentes afiados à lima, de pele escura, com balaios artesanais presos às costas, vestindo calças jeans, camisa, tênis, e índias acompanhadas de crianças pedindo esmolas nas esquinas de Londrina. A imagem é paradoxal e acontece de forma esporádica, mas exemplifica os maiores sacrifícios culturais a que a comunidade caingangue da Reserva do Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao Sul de Londrina), se sujeitou para manter viva uma das mais antigas tribos indígenas do Brasil, em pleno início de século 21.
Os três mil índios caingangues, guaranis e xetás que vivem no Norte do Estado sob responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai) já tiveram 80 mil hectares de terras para morar, até meados dos anos 1950. Naquela mesma década, o ''latifúndio'' foi transformado em ''chácara'' pelo governo do Estado, com a redução das reservas para pouco mais de 6 mil hectares.
Inversamente proporcional à perda de espaço foi a aquisição, por parte da comunidade, de hábitos e costumes comuns ao povo da cidade. Na Reserva do Apucaraninha, os índios comem arroz com feijão, vestem calça e camisa, assistem TV, lavam roupas na máquina e usam o telefone celular quando querem conversar com os filhos que estão na faculdade.
Os hábitos adquiridos, contudo, não são somente costumes comuns ao dia-a-dia do homem branco. Alcoolismo e violência doméstica chegaram junto com o sinal da tevê, constituindo um problema que só foi afastado com a aquisição de outra prática até então desconhecida pelos índios: a leitura da Bíblia em processos de evangelização.
Traumas decorrentes de quase 300 anos de luta sangrenta contra o branco, durante o processo de pacificação das comunidades indígenas entre 1670 e 1930, também são evidentes entre os índios. Talvez por isso seja possível sentir, nos olhos do cacique da reserva, Juscelino Virgílio, a desconfiança diante do repórter mais um homem branco, de fala difícil e ignorante frente a hábitos tão comuns aos habitantes da aldeia.
Ainda assim, ele não sonega informações, principalmente enquanto explica o porquê de tamanha adequação da cultura caingangue a hábitos ''brancos'', muito questionada por quem não vê sentido na luta de terras por uma comunidade que hoje não é mais vista por muitas pessoas como indígena.
''Não tivemos muita escolha. Nossos bisavós, avós e pais já foram muito enganados por brancos. O que tentamos fazer hoje é uma adaptação, para conhecermos melhor nossos próprios direitos'', resume. ''Nada foi feito por opção. Comemos arroz e feijão porque não temos mais como caçar. Vestimos roupas comuns porque precisamos ir à cidade'', completa Gilda Kuitá, 49 anos, uma das professoras da comunidade.
Como acontece no decorrer e ao fim de toda luta, sempre há quem se sacrifique. E esta expressão, que sempre é utilizada como figura de linguagem, ganha significado real quando usada em referência à comunidade indígena. Realidade nas esquinas, ocupadas por crianças à procura de esmola ou em bares e à beira de estradas, com homens alcoolizados, derrotados para o trabalho, mas prontos para a agressão contra as esposas. Mesmo em Londrina, cidade que conta com uma casa-abrigo o Centro Cultural Caingangue para índios que vêm à cidade para vender artesanato, a cena é vista com uma frequência que, se não é grande, incomoda tanto à população quanto às autoridades relacionadas com a questão indígena.
A índia Ceci (nome fictício) contou que vem para Londrina acompanhada da irmã e de três crianças, de 11, 10 e 7 anos. ''Viemos para vender balaios'', contou, em meio a sacos de roupa, comida e a uma panela, encostada em tijolos usados como fogão. ''Não ficamos no Centro Cultural porque lá está sempre lotado''.
Além de colocar em risco a saúde e a segurança das crianças, os ''acampamentos'' expõem os índios a um outro problema, também comum às metrópoles: a mendicância. A própria Ceci admitiu pedir dinheiro para quem passa pelo local. ''Para o meu filho comprar sorvete'', argumenta ela.
''Eles pedem dinheiro, comida, água... E quando chegam com algumas moedas querem comprar pinga. Eu, inclusive, já vi até mesmo um carro da Funai deixar índios neste terreno'', denuncia o comerciante Alfredo José de Moura, dono de um bar próximo à rodoviária.
Virgílio e Gilda apontam a ingenuidade dos ancestrais como uma das causas para o nascimento dos problemas no seio da comunidade caingangue, encontrando apoio histórico no administrador regional da Funai, José Gonçalves. ''A luta por terras foi constante no início do século passado. Como a resistência era grande, os brancos começaram a usar artifícios como a bebida alcoólica para barganhar'', relembra Gonçalves.
A consequência mais grave dos negócios realizados com esta moeda, segundo os próprios índios, foi vista há cerca de 15 anos, quando um ''boom'' de indígenas alcoolistas foi identificado nas reservas de Barão de Antonina, em São Jerônimo da Serra (78 km ao Sul de Cornélio Procópio) e em Tamarana. ''No Barão (de Antonina), era fácil ver 10, 12 índios caídos na estrada, bêbados'', lembra Américo Rodrigues, um dos líderes da comunidade.
Gilda ainda cita casos extremos de medo que os índios sentiam dos brancos, sentimento que colaborou muito para a perda de terras e, por consequência, da própria identidade cultural da comunidade. ''Quando eu era criança, meus pais falavam do branco com tanto ódio e medo que, ao ver um deles, eu corria para me esconder no mato''. Deste ponto em diante, a situação começou a mudar.
''Percebemos que era preciso competir com o branco e não se sujeitar a ele. Por isso, mandamos nossos filhos para a faculdade'', conta Virgílio, lembrando, em coro com Américo, como se deu o combate a problemas como o alcoolismo. ''A evangelização ajudou o índio a sair do álcool'', enumera Rodrigues. Os resultados são claros. Desde então, alcoolismo e violência doméstica praticamente desapareceram do contexto das comunidades.
O recurso é visto com reservas pela antropóloga e coordenadora do Programa de Atendimento ao Caingangue da prefeitura, Marlene de Oliveira. Para ela, os benefícios apresentados pela Igreja aos índios são inegáveis nos aspectos social e de saúde. ''Meu receio é de que novas práticas religiosas os afastem dos rituais que são inerentes à cultura deles. Se isso não acontecer, não há problema nenhum'', destaca ela, sem saber que o risco já se expõe na Reserva do Apucaraninha. ''Sou evangélico, mas não deixo de praticar rituais religiosos caingangues'', afirma o professor Manoel Felisbino. ''Mas se a minha religião me orientasse a parar, eu pararia''.


