Paris - A grande imprensa francesa vem dando destaque desde julho ao Ano do Brasil na França. Jornais como o Le Monde, Le Figaro, Libération e também as mais importantes revistas têm toda semana páginas inteiras dedicadas ao engenho e arte brasileiros.
Em agosto o semanário do Le Monde publicou várias reportagens sobre o Brasil. Na primeira semana do mês a revista traçou um perfil da Bahia. A história do Estado que foi palco do descobrimento, um texto de Jorge Amado datado dos anos 80, a presença negra na cultura baiana e até a guerra de Canudos estão nas páginas.
As feridas abertas do Brasil também dão o que falar. A revista da Anistia Internacional, publicada há dois meses, traçou o perfil das perebas: torturas nos presídios, sistema penal inoperante, má distribuição da riqueza, desigualdades sociais (dizem por aqui que somos um dos países mais desiguais do mundo, se é que não somos o maior), a questão agrária, a corrupção, o atual governo frente a problemas de toda ordem.
A complexidade do Brasil, dezesseis vezes maior do que a França, chama a atenção dos franceses, que, verdade seja dita, se esforçam para compreender esse país continental, sua gente, e notadamente sua cultura.
Foram citados os músicos Henri Salvador, Georges Moustaki, Claude Nougaro, além de cineastas como Marcel Camus, que nos anos 60 filmou Orfeu Negro, baseado na peça de Vinicius de Moraes. Para concluir, o jornalista reverencia a música, a maior herança que a cultura brasileira dá ao mundo.
Segundo ele, os brasileiros são autodidatas musicalmente e não param de irrigar a canção francesa. A relação de musicalidade entre os dois países, apontou o jornalista, não é recíproca. Enquanto os brasileiros cantam, os franceses são meros passistas, enquanto eles soletram de cor o nosso beabá musical, nós demonstramos uma ''ignorância aflitiva'' sobre o som que eles produzem.
A televisão francesa também adotou o estandarte auriverde e está transmitindo semanalmente emissões sobre o Brasil. Até as vinhetas do canal público France 3 são ao som do baticundu de um sambinha ensaiado. Em horário nobre, e mesmo de manhã e à tarde, não faltam opções para o telespectador. A programação começou meio timidamente mas de uns quatro meses para cá os canais públicos embarcaram de vez no lema. Filmes como O beijo da mulher-aranha e Pixote, de Hector Babenco, Central do Brasil, de Walter Salles (este diretor, por sinal, é endeusado pela imprensa francesa) e Dona Flor são alguns dos que foram transmitidos esse ano.
Os principais temas transmitidos até agora foram a presença francesa no Brasil, a obra da cantora Maria Bethânia, um campeonato de peladas de Manaus, o samba em todas as suas vertentes. Entre tudo que passa na telinha, nada faz mais sucesso que as favelas brasileiras.
Esse produto nacional, que nem é exclusividade nossa, já que basta dar um giro pela região metropolitana de Paris para se tropeçar em barracas miseráveis habitadas quase sempre por romenos, é o que há. Chamadas de ''bidonvilles'', as favelas, especialmente as do Rio de Janeiro, intrigam os franceses. Eles quebram a cabeça para entender suas regras, a arte insólita de se pendurar nos morros, o universo particular de seus moradores. (M.B.)

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