De acordo com o cerimonial japonês, amanhã Akihito se dirigirá em japonês às autoridades paranaenses de costas para o público, no Parque Barigui. Ele estará isolado, no centro de um palco armado no salão de convenções. Mas Akihito, que desde príncipe tem a mania de quebrar com sutileza tradicões milenares, deverá, pelo menos por alguns minutos, encarar o público de frente. Os idosos tomarão os lugares mais próximos do palco, poderão, assim, ver o imperador e quem sabe até receber um aceno, sem que este gesto faça cair o manto de divindade que cobre a figura imperial japonesa.
O mestre de cerimônias do encontro no Parque também vai falar em japonês, sem tradução. Mas, como o imperador é fluente em inglês, é possível que utilize essa língua para conversas informais, especialmente durante o almoço no Jardim Botânico.
Os rigores dos cerimoniais tanto do lado japonês quanto do brasileiro correm o risco de serem quebrados durante a permanência de Akihito e de Michiko em Curitiba. A previsão é otimista, mas pesa em favor dela o fato do casal imperial ter o Paraná como uma ‘‘casa’’ onde a acolhida por parte de seus moradores costuma ser das melhores.
Pesa também a pressão da multidão que deverá receber o casal no Barigui. Caravanas organizadas pelas associações culturais e recreativas que agregam os japoneses e seus descendentes viajarão quilômetros até Curitiba. Nikkeys do Norte, Sul, Oeste, Sudoeste e demais regiões do Paraná, levando entre as bagagens o tradicional embrulho do ‘‘obentô’’ - um lanche reforçado - passarão horas nas poltronas dos ônibus para ver Akihito e Michiko. Caravanas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul também estão sendo aguardadas.
Akihito quebrou tradições e costumes rígidos por mais de uma ocasião. O casamento com Michiko em abril de 1959 é um exemplo. Apesar de ser filha de um rico industrial japonês, Michiko não se enquadrava na categoria das famílias nobres, como exigia a tradição imperial. Outro exemplo é a educação dos três filhos do casal imperial. Akihito e Michiko procuraram educá-los sob o mesmo teto onde permaneciam, ao contrário do que fizeram seus antecessores: os filhos eram criados em outro palácio, distante dos pais imperadores.
Menos privilégios deverão ter os políticos e os jornalistas brasileiros. Como divindidade, conforme enfatiza o embaixador japonês no Brasil Chihiro Tsukada, Akihito está acima da política e dos temas econômicos. Não é bem assim, a julgar inclusive por publicações oficiais japonesas: Akihito e Michiko já visitaram mais de 40 países depois da ascendência ao trono e, na maioria das viagens participaram de debates sobre assuntos científicos.

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