IMIN 100 - Um cantinho oriental em São Paulo
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sábado, 14 de junho de 2008
Wilhan Santin<br>Enviado a São Paulo 
Estação Liberdade. As portas do metrô se abrem e, ao sair da estação, quem embarcou em qualquer outro ponto da Capital paulista tem a impressão de que o trem andou demais e foi parar num cantinho do Japão. Aqueles que chegam de carro ou a pé também ficam com a mesma sensação. É gente de olhos puxados para todos os lados. Também não é raro encontrar pessoas conversando em japonês. O passeio vale a pena. A reportagem da FOLHA percorreu as ruas acanhadas do lugar e descobriu boas histórias.
A ocupação dos japoneses no bairro, de acordo com o site Cultura Japonesa, remonta ao ano de 1912, quando os imigrantes passaram a residir em uma das ladeiras íngremes que existem por ali. Com o acentuado declive da rua, quase todas as casas tinham porões, alugados a preços módicos. Perfeitos para os imigrantes japoneses, que estavam com pouco dinheiro no bolso. O fato de o bairro estar na região Central também colaborou.
Com os japoneses chegando sem parar, logo surgiram os estabelecimentos tipicamente orientais. Não demorou para que a Liberdade ganhasse o título de ''bairro japonês''. Hoje, alguns pioneiros já rejeitam esse título, justificando que o correto é dizer ''oriental'', devido à forte presença de chineses e coreanos por ali. Mas os japoneses ainda predominam.
Uma das maiores atrações da Liberdade é a feira - ao melhor estilo feira livre - que acontece aos domingos. Da culinária ao artesanato, tem muita coisa que chama a atenção.
Começamos com Kiyoshi Suzuki, 87 anos de idade e 73 de Brasil. Ele vende limpadores de língua feitos de bambu. Cada peça custa R$ 2. Na barraca dele tem também cotonetes japoneses, tiradores de cutículas e lixas para pés. Mas o que vende mesmo é o limpador de língua, mais de 50 unidades a cada domingo. ''Se usar direitinho, dura dois anos. Língua limpa é saúde'', destaca.
Outra barraca concorrida é a de Kazuo Osaka, um monge xintoísta que há 20 anos trocou Tóquio por São Paulo. Ele vende amuletos abençoados por R$ 6. Em um pedaço de papel vai o nome do comprador e um desejo, escritos em japonês. Depois vem a benção e pronto. É só guardar o amuleto para ter o desejo realizado. ''Faço mais de 200 por domingo'', conta.
Tão concorrida quanto as outras duas é a barraca de Julio Sato. Mas há uma diferença, boa parte do público dele é composto por crianças. O motivo é o produto: peixes ornamentais. Tem para todos os bolsos. Os bichinhos custam de R$ 2 a R$ 50.
Já faz 14 anos que ele está na feira. Filho de um imigrante, Sato faz questão de destacar que aprendeu sobre peixes de aquário com o pai e lembra a coragem dos primeiros japoneses que desembarcaram no Brasil. ''Eles foram muitos corajosos de vir para um lugar desconhecido sem saber o que encontrariam'', ressalta.
As barracas que vendem comida refletem o atual estágio de ''multiculturas'' presentes no bairro. Um exemplo é a comandada pelo casal Wu Ning Lee, um chinês, e Sueli Rumy Wu, de ascendência japonesa.
Assim como acontece em muitos estabelecimentos comerciais do bairro adquiridos por chineses, a barraca de Wu Ning Lee continua com cara japonesa. É a estratégia adotada para manter a freguesia.


