A paciência e a persistência - características marcantes entre os japoneses - sempre estiveram presentes na vida de Susumo Itimura. Ele chegou do Japão em 1919 com um ano e nove meses, teve uma infância e uma juventude difíceis, trabalhou como colono nas lavouras de café, vendeu verduras nas ruas, mas teve seu esforço recompensado: ganhou o título de ''rei do rami'', alçando mundialmente o nome da pequena Uraí (26 km a oeste de Cornélio Procópio) como a capital mundial do rami. Acumulou fortuna e, desfrutando da longevidade oriental, aos 90 anos é também o prefeito mais velho do mundo.

Seu pai, Kotaro, veio ao Brasil depois de problemas pessoais durante a 1 Guerra Mundial. De Santos partiram para Brodowski (norte de São Paulo), onde os pais trabalharam como colonos em fazendas de café. Aprendeu cedo a lida do campo e a dedicação sentenciou o seu futuro: queria ser fazendeiro e, por isso, deixou os estudos. Aos 11 anos, começou a vender de casa em casa verduras cultivadas na fazenda.

De Brodowski, a família, que já estava com cinco irmãos, partiu para Araraquara (SP). Continuavam a trabalhar nas lavouras cafeeiras e, nas horas vagas, o primogênito trocou as verduras pela engorda de suínos e aos domingos seguia com o comércio de rua, desta vez com sorvetes. ''Gostava disso e também queria juntar um dinheirinho.''

Bilhete premiado
Foi nesta cidade que a sorte da família começou a mudar. O pai comprou um bilhete da loteria, que foi premiado. Em 1938, decidiram investir em Uraí, onde havia sido lançado um loteamento de uma companhia japonesa.

''Foi sorte termos vindo para o Brasil. Sofremos bastante, mas tivemos oportunidades'', diz. No ano seguinte seu pai morreu e a ele coube a responsabilidade pelo sustento da família.

Começou plantando café, mas o espírito visionário o levou a optar pelo rami. A nova cultura chegou ao município trazida pela companhia japonesa Fiação e Tecelagem Tokyo de Rami S/A, que comprou uma área de 200 alqueires e fundou o Campo Experimental de Rami.

Foi a essa empresa que Itimura recorreu para conseguir algumas mudas - ele afirma que não tinha dinheiro sequer para a compra. Mais uma vez soube aproveitar as oportunidades e das mudas ganhas fez fortuna. Chegou a ter 34 fazendas em 16 municípios do Paraná com uma produção total de 3,5 mil toneladas de rami por safra. Empregou cerca de 15 mil pessoas em períodos sazonais.

Nesta época casou, teve uma filha, desquitou da primeira esposa e casou novamente, com quem teve outros cinco filhos. Em Uraí, fundou a Companhia Industrial Paranaense de Rami, a fábrica de barbantes. Fundou também a Imperial Fibras Indústria e Comércio que alvejava o rami em tops, deixando-o pronto para fabricar tecidos. Chegou a vender para grandes indústrias têxteis.

No entanto, os sucessivos pacotes econômicos e o congelamento de preços impostos pelo governo federal aliada à forte concorrência chinesa no processamento do rami (o custo chinês era dez vezes mais baixo) o levaram a fechar a fábrica.

Atualmente, no lugar da indústria de sacarias funciona secadores e máquinas de beneficiar café. E no lugar da Imperial Fibras funciona a Tomita Itimura Comércio de Produtos Agro-Pecuários Ltda.

Dívida quitada
A promessa de cuidar do sustento da família foi seguida à risca por Itimura. Todo o patrimônio comprado tinha os cinco irmãos como sócios e, por isso, posteriormente foi dividido igualmente. Hoje ainda lhe restam oito fazendas.

Em 1962 veio o convite para participar da política local. Naturalizou-se brasileiro, ganhou as eleições para prefeito com cerca de 70% dos votos, e em 1964 começou o primeiro de seus quatro mandatos. Ele ainda governou o município entre 1972 e 1976 e entre 1997 e 2000.

O quarto mandato - iniciado em 2005 - termina neste ano, mas, por enquanto, a vitalidade tem falado mais alto. Apesar de ainda não estar totalmente decidido, ele deve concorrer à reeleição. ''Vai depender da saúde e da segunda saúde (dinheiro), porque sem esta não adianta nem entrar.''

Ele faz questão de dizer que não tem apenas eleitores japoneses. Da colônia mesmo recebeu poucos votos, afirma. ''Meu voto é dos caboclinhos porque toda vida gostei de ajudar esse povo. Toda vez que fui prefeito, perdi dinheiro.''

Hoje, ele cultiva café, soja e uva. Mas, o espírito visionário já lhe permitiu vislumbrar um outro investimento: a laranja. ''Laranja é o futuro, rende sete vezes mais do que a soja'', conta empolgado.

Hoje com seis filhos, 18 netos e 6 bisnetos, diz ter orgulho de ser brasileiro. ''Teria morrido na guerra se meus pais tivessem ficado lá. O melhor lugar é o Brasil, o Japão é muito apertado, não tem o calor humano do Brasil e o brasileiro é muito bom nesta parte'', conclui.

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