Imigrantes tiveram início de tristeza e sofrimento
Parabéns à lavoura paulista, apesar de que, a nosso ver, não é caso para isso. A experiência tem demonstrado que essa colonização asiática tem dado mau resultado em toda parte. Os japoneses não se adaptam aos países em que vivem, são refratários ao uso e costumes alheios, constituem, fora da pátria, uma sociedade sua, própria, como acontece na América do Norte (artigo publicado no jornal Tribuna de Santos, em 18 de junho de 1908, quando os primeiros 781 japoneses pisaram o solo brasileiro, e transcrito em reportagem do caderno especial da Folha de 30 de junho de 1983, em comemoração aos 75 anos da Imigração Japonesa).
A desconfiança retratada no artigo do jornal Tribuna de Santos era generalizada. Mas os interesses econöômicos do Estado de São Paulo falava mais alto. É que a libertação dos escravos em 1888 trouxe reflexos negativos para a cafeicultura, devido a escassez de mão-de-obra. Tentativas com a imigração européia fracassaram, porque os italianos e os espanhóis não suportavam o duro trabalho rural e fugiam para as cidades.
Com os japoneses, segundo planejou o governo paulista, seria diferente. Eles ficariam retidos nas fazendas cafeeiras devido às dificuldades com o idioma. Além disso, havia o interesse de conquistar o mercado oriental para o café: oito dias depois da chegada do Kasato Maru, o governo paulista assinou um contrato de propaganda do café brasileiro no Japão.
Outro fator que contribuiu para a entrada dos japoneses no Brasil foi a lei nº 365, de 1894, que limitou a aceitação de imigrantes de certos países europeus, americanos e africanos. Os fazendeiros então pressionaram o governo paulista, que concordou em introduzir os japoneses em caráter experimental. Em 6 de novembro de 1907, foi assinado o primeiro contrato de imigração entre o então presidente do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriçá, e o presidente da Empire Emigration Company, Rio Mizuno.
Pelo lado dos imigrantes nipônicos, a vinda para o Brasil não passava de uma aventura temporária em busca de dinheiro. Em tese defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 1971, Arlinda Rocha Nogueira cita uma carta enviada do Japão para o imigrante Choji Suzuki. Um amigo é o autor da correspondência e pede a Choji que envie dinheiro para manter a plantação de macieiras que o imigrante tinha confiado a ele e também para evitar a hipoteca da propriedade rural no Japão, assumida em razão de empréstimo contraído para a viagem no Kasato Maru.
Endividado e longe das macieiras, Choji Suzuki integrou o grupo de japoneses que no dia 18 de junho de 1908 desembarcou no Porto de Santos, em meio a uma densa neblina de inverno. Imediatamente após o desembarque, as famílias foram encaminhadas para a Diretoria de Imigração, de onde seguiram para São Paulo em viagem que durava na época cerca de quatro horas.
Causou admiração o fato de terem desembarcado na mais perfeita ordem. Todos estavam vestidos à moda européia. Os homens de chapéu ou boné e as mulheres de saia e camiseta pegada à saia, cinto e chapéu dos mais simples, preso à cabeça por um elástico ordenado com grampo. Todos estavam calçados com botinas, borzeguins ou sapatos baratos (com ferro na sola) e usavam meias. Chamou a atenção também o fato das mulheres trazerem as mãos calçadas com luvas brancas e os homens usarem gravatas. Além de roupas indispensáveis traziam pasta de dentes, um frasco de conservas, um molho para temperar comida, uma ou outra raiz medicinal, os indispensáveis e esquisitos travesseiros, pequenos e altos, de madeira forrada de veludo ou bambu fino, flexível. Cobertores, acolchoados, casacões contra o frio, ferramentas pequenas, um ou dois livros, uma caixa de papel para cartas, nanquim para escrever, hashi, colheres pequenas. Nenhum contrabando. Foi o que escreveu para o jornal Correio Paulistano, semanas depois do desembarque, o inspetor Amandio Sobral (transcrito so caderno especial da Folha de 30 de junho de 1983, em comemoração aos 75 anos da Imigração Japonesa).
Setenta anos depois, durante as comemorações do 70º aniversário da chegada do Kasato Maru, o imigrante Yamato Kinjo era considerado uma exceção entre o grupo de 781 japoneses que chegaram na primeira viagem do navio. Kinjo se formou dentista no Brasil, depois de conseguir escapar do regime de semi-escravidão nas lavouras cafeeeiras.
Em relato feito na época, o dentista contou que tinha 15 anos quando fugiu de uma fazenda de Itu (SP), em companhia de uma amigo de 13 anos, e meses depois, sem saber falar português, chegou à capital paulista. Um carregador de malas da estação, vendo a nossa situação, nos levou a um japonês que já tinha emprego porque era imigrante livre, veio sem contrato. Ficamos na casa dele até que consegui um emprego para fazer pequenos serviços domésticos na casa de um dentista. Com o tempo, aprendi a técnica da prótese em seu pequeno laboratório. Com auxílio de amigos consegui entrar na Faculdade de Odontologia de Pindamonhangaba.Reprodução de foto pertencente ao Museu Histórico da Imigração JaponesaCaminho da esperançaApós a chegada no Porto de Santos, os japoneses subiram para a capital paulista de tremWalter Ogama





