Imigração, a primeira via de um lance que se repete
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de junho de 1997
Walter Ogama 
Polêmica, mas fundamental. Queira ou não, a discussão sobre a imigração japonesa há 89 anos e a atual debandada de brasileiros para o Japão, na condição de trabalhadores braçais (dekasseguis), sempre será cercada de opiniões prós e contras. O assunto, porém, exige o debate.
Em 30 de junho de 1983, a Folha de Londrina publicou cadernos especiais sobre os 75 anos da imigração. No caderno com o título Nossos olhos puxados, uma reportagem reproduz trecho de artigo publicado no jornal Tribuna de Santos, edição de 18 de junho de 1908, data em que os primeiros 781 japoneses que chegaram ao Brasil por força de um contrato de trabalho, no navio Kasato Maru, desembarcam no Porto de Santos:
Parabéns à lavoura paulista, apesar de que, a nosso ver, não é caso para isso. A experiência tem demonstrado que essa colonização asiática tem dado mau resultado em toda parte. Os japoneses não se adaptam aos países em que vivem, são refratários ao uso e costumes alheios, constituem, fora da pátria, uma sociedade sua própria, como acontece na América do Norte.
O primeiro contrato de imigração de japoneses para São Paulo foi assinado no dia 6 de novembro de 1907, pelo então presidente daquele Estado, Jorge Tibiriçá, e o presidente da Empire Emigration Company, Rio Mizuno. Os japoneses, lembra a reportagem, vinham com a esperança de enriquecer e voltar para o Japão:
Para se ter uma idéia de como os japoneses acreditavam que poderiam voltar logo, Arlinda Rocha Nogueira cita em sua tese defendida em 71 na USP (Universidade de São Paulo) uma carta vinda do Japão em 1911 para o imigrante Shoji Suzuki. Nela um amigo encarece a necessidade de que o imigrante envie logo um dinheiro para o Japão, não só para que ele não seja obrigado a abandonar a plantação de macieiras que o amigo deixou em confiança, como também para evitar a execução da hipoteca em razão do empréstimo contraído para a viagem.
Diz ainda que dos primeiros viajantes do Kasato Maru, apenas um conseguiu formar-se em curso superior porque fugiu do regime de semi-escravidão a que era submetido nas fazendas de café do Estado de São Paulo. Com 15 anos de idade, Yamato Kinjo fugiu de uma fazenda de Itu, com um amigo de 13 anos. Os dois chegaram a São Paulo, onde foram apresentados por um carregador de malas a um imigrante livre, que havia chegado ao Brasil sem contrato de trabalho.
Ficamos na casa dele até que consegui um emprego para fazer pequenos serviços domésticos na casa de um dentista. Com o tempo, aprendi a técnica da prótese em seu pequeno laboratório. Com o auxílio de amigos consegui entrar na Faculdade de Odontologia de Pindamonhangaba. Depois de formado, fiz logo uma boa clientela que me proporcionou uma boa situação financeira, aponta a reportagem de 1983.
Os imigrantes japoneses chegavam em Santos e eram encaminhados para a Diretoria de Imigração. A viagem até São Paulo durava quatro horas. Era ali que a esperança de sucesso com o trabalho começava a se desmoronar. No lugar do trabalho, como estabelecia o contrato que os japoneses assinavam no Japão, era trocado pelo regime de semi-escravidão a que os imigrantes foram submetidos.
O segundo navio com imigrantes japoneses chegou ao Brasil no dia 28 de junho de 1910. O Ryojum Maru trouxe 906 pessoas: Até 1914, mais oito navios chegaram ao Brasil, trazendo 13.289 imigrantes japoneses. De 1925 a 1935 a imigração japonesa no Brasil viveu sua época culminante, com a chegada de 139.059 pessoas. Em 35, a Lei dos Dois Por Cento limitou em 2.849 o número permitido de entrada de imigrantes por ano, o que faz diminuir a imigração, paralisando-a totalmente durante a Segunda Guerra Mundial. Ela é retomada a partir de 1952, com a entrada de 52 pessoas. Até 1960 chegaram mais 46.016 imigrantes. De 1961 em diante, o caráter da imigração se modifica e por solicitação do governo brasileiro, inicia-se a imigração de técnicos japoneses, ilustra a reportagem.
Parte deste contingente retorna para o Japão a partir de fins da década de 80, também por força de um contrato de trabalho. Embora livres do regime de semi-escravidão, como ocorreu com os imigrantes japoneses, os brasileiros enfrentam o sofrimento da separação da família e das diferenças culturais de um país distante, não só geograficamente, mas também culturalmente.
E a história se repete.


