IMAGENS FRAGMENTADAS - Todos podemos ser celebridades
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Britney Spears e sua enésima aparição de biquini na praia. Imagem. Beyoncé Knowles nas premiações da MTV. Imagem. Brad Pitt, o favorito das moçoilas. Imagem. Dos tablóides e publicações internacionais, chegando ao plano nacional, seja da mais séria à mais descompromissada das publicações, a comunicação visual é requisito obrigatório em se tratando de uma iniciativa com êxito.
Na atual sociedade, regida por um manancial de informações, estranho seria se o cidadão comum, tão acostumado a consumir imagem, não tivesse aquele momento delineado pelas palavras de Andy Warhol, principal expoente da Pop Art. Com a chegada do Orkut, de propriedade do Google, lançado em janeiro de 2004, todos têm direito a seus ''15 minutos de fama''.
Imagem vale mais do que mil palavras? - Diante de tal quadro, impossível não lançar a pergunta: uma imagem vale mais do que mil palavras? Publicitário e mestre em Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Hertez Wendel de Camargo propôs, em recente projeto, o estudo das auto-representações do homem contemporâneo em imagens fotográficas na internet. O saldo? Sim, os chavões são válidos: mais do que mil palavras, imagem é tudo.
Hertez recorre à autora Susan Sontag, que traz a fotografia como ''pílulas da realidade''. ''Se analisarmos a fotografia, percebemos que ela é um recorte da realidade. O ser humano desenvolve-se em torno do sentido da visão. É por meio da visão que entendemos o mundo''
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Ao fazer o paralelo entre a fotografia desde seus primórdios - nasceu no século XIX - à atual era do megapixel, da geração ''orkutiana'', Hertez acena para a fragmentação. ''No início, as pessoas estranhavam se os personagens das fotos saíssem com uma parte do corpo cortada, seja a cabeça, os braços ou as pernas. Hoje, estamos acostumados com essas linguagens. Não há mais o estranhamento''.
Mundo como loja de departamentos - Para o publicitário, que cita em seu projeto que ''a fotografia conseguiu seu maior efeito, isto é, transformar o mundo em uma loja de departamentos'', a imagem fragmentada remete, com o perdão do pleonasmo, à imaginação. ''O recorte faz com que o espectador construa sua realidade a partir daquele fragmento, há a pluralidade''.
Entre os exemplos célebres de quem obteve êxito por meio da imagem, Hertez aponta, de pronto, a milionária americana Paris Hilton, que, após uma sucessão de aparições como patricinha que é, obteve, por meio da manipulação, a fama.
A outra ponta do iceberg traz a atriz australiana e ex-senhora Tom Cruise, Nicole Kidman. ''Ela conseguiu construir uma imagem seletiva, de quem opta pelo que vai fazer, não participa de um filme por dinheiro. Hoje, tudo é indústria cultural: as celebridades acabam ocupando um tipo de lacuna que foi preenchida anteriormente pelos deuses. São deuses contemporâneos que podem ser adorados, pois nossa tendência é polisteísta''.
Propaganda que parece mágica - No Orkut, também, a relação é mágica, defende Hertez. ''O Orkut é a propaganda pessoal. É exatamente o contexto de celebridade. Quem está no Orkut, tem a oportunidade de construir uma imagem ou realidade bem definida. E extremamente efetiva: você pode ser descolado, simpático, legal... O álbum e o ''profile'' (perfil) são um teatro que não têm nada de ruim. O Orkut é um exercício que todo ser humano precisa fazer. Todos precisamos de brincadeira e de sonho''.
Transportado à ''realidade'' do Orkut, o publicitário, que também é coordenador de curso e encarnou seu ''personagem'' na sessão de fotos alusiva à matéria - isto é, ''homem sério, com agenda pontual e objetivos idem'' -, aponta um dos principais benefícios da ferramenta. ''A pessoa torna-se fotógrafa, webdesigner, produz seus vídeos e exercita o narcisismo. Em síntese, podemos dizer que somos o objeto fotográfico, produtores e espectadores da foto. É o que a tecnologia ao alcance das mãos nos traz''.
Por conta do repertório cultural de cada internauta, a interpretação de tais imagens sofre variações. ''Da mesma forma que uma campanha publicitária pode ser interpretada de maneiras diversas, no Orkut a situação não difere. A maior subjetividade de uma foto é, paradoxalmente, a objetividade à qual ela se propõe, ou seja, sua representação'', afirma o publicitário.
Projeção do 'eu' com legendas - Com capacidade para 12 fotos, o álbum do Orkut é, de acordo com Hertez, melhor compreendido com legendas. ''Imagino o álbum do Orkut como quando um leitor avista uma foto na FOLHA: primeiramente, você olha a foto. Eis a primeira impressão. Segundo passo: ler a legenda. Na sequência, entende-se a foto. A legenda higieniza a foto, trazendo texto e imagem bem definidos'', conclui.
Realidade, simulação ou um belo instrumento de divulgação pessoal? Entre muitas dúvidas, certezas, partidários e opositores, pergunta inevitável a um entrevistado que analisou o Orkut. Teria Hertez conta em tais domínios? ''Mantenho meu perfil sim. Aliás, quando não consigo falar com uma aluna ou aluno na instituição, lanço mão do Orkut. Funciona''.


