IGREJAS DO PARANÁ - A arte que aproxima a alma de Deus
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de julho de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Pelas estradas do Norte do Paraná, a cena repete-se diversas vezes: avistando as menores cidades, ainda de longe percebe-se um destaque na paisagem praticamente sem prédios. Estamos falando das imponentes igrejas católicas, construídas há décadas e que se tornaram ponto de referência desses municípios.
Hoje, esses templos têm um significado que vai além da religião, eles também ''guardam'', dentro de suas paredes, uma boa dose de arte, história e cultura. Por isso, com a idéia de conhecer um pouco da arte religiosa que temos espalhada por essa imensidão de terra vermelha, a FOLHA convidou o artista sacro Sérgio Ceron para pôr o pé na estrada e visitar algumas igrejas.
Relíquias - Um dos nossos pontos de parada é Tomazina (101 km ao sul de Jacarezinho), que com seus 140 anos é a mais antiga do Norte Pioneiro. A matriz da cidade teve sua pedra fundamental lançada em 1924 e ficou pronta 11 anos depois, em 1935. Somente pelo fato de guardar as relíquias de Santo Inocêncio, um mártir da igreja católica, que viveu na Roma antiga, o templo já merece uma visita. Mas existem outros atrativos.
Pintada internamente, em 1951, pelo curitibano Paulo Kohl e restaurada entre 2004 e 2005 pelo paulista Mauro Andreati, a igreja impressiona pelo colorido. ''No Brasil, existem diversas igrejas assim, mas no Paraná é difícil encontrar algo semelhante'', diz Ceron.
No chão, o piso de ladrilho hidráulico é daqueles feitos para durar a vida toda e tem um valor histórico. Também chama a atenção um púlpito de madeira, que está fora do presbitério e fica elevado em relação ao plano reservado para os fiéis. ''É aqui que os padres subiam para pregar na época em que não existia microfones e nem sistema de som'', ensina o artista sacro. Os confessionários também são de madeira, no mesmo estilo do púlpito.
Engana o olho - ''Na pintura, um processo interessante encontrado na igreja de Tomazina foi o trompe l'oeil, ou seja, 'engana o olho', traduzido do francês. O termo tem origem no período Barroco, mas se trata de uma técnica pictórica em uso já na antiga Grécia e Roma. Um típico mural trompe l'oeil pode representar uma janela ou uma porta, por exemplo, para dar a impressão de que o espaço é maior''.
''Assim'', complementa Ceron, ''vemos no teto dessa igreja o céu onde está a virgem assumpta, que se apresenta mais longe do que realmente está''. ''Um outro elemento também presente na igreja de Tomazina são as falsas colunas, com capitéis coríntios, compostos com folhas de acanto, também herança do classicismo'', explica.
Madeira maciça - E quando falamos de cidades onde a igreja se destaca na paisagem, Congonhinhas (55 km ao sul de Cornélio Procópio) é um exemplo claro. Quem passa pela PR-218, rodovia que liga o município às outras cidades da região, logo vê o templo, construído na década de 1930. Por fora, a arquitetura remete ao estilo neoclássico, com uma torre. No lado de dentro, o estilo é o das basílicas italianas, com colunas e arcos e mais de uma nave.
O que mais impressionou nosso consultor, no entanto, não foi nenhuma obra de arte, mas o forro, em madeira maciça. É interessante, também, o espaço que é reservado ao sacrário - local onde os católicos guardam a hóstia consagrada - em uma capela à parte, fora do presbitério.
''Por ser um ambiente menor, convida os fiéis à oração e permite chegar mais perto do sacrário'', ressalta Ceron. De acordo com o pároco da igreja, padre Sebastião Rodrigues, o templo provavelmente foi construído com o dinheiro de algumas famílias de Siqueira Campos que compraram, na década de 1920, 500 alqueires de terra na região que era conhecida como Congonhas e doaram uma área para a mitra diocesana de Jacarezinho.
Paleta de estilos - Para Sérgio Ceron, depois de analisar a arquitetura e a arte de diversas igrejas espalhadas pelo Norte do Paraná, o que encontramos é uma verdadeira mistura de estilos.
''Não existe, tanto na arquitetura como nas obras de arte, um estilo puro. Muitos elementos presentes na arquitetura, principalmente das fachadas das igrejas, foram resultado de uma herança cultural européia, transmitida principalmente pelos missionários e congregações religiosas atuantes no Norte do Paraná, no período que vai da segunda metade do século 19 até a primeira metade do século 20''.
''Na arquitetura externa visualizaram-se, principalmente, informações do neoclássico que se fundiu, de certa maneira, com a tradição colonial, resultando em uma arquitetura peculiar, presente em muitas cidades brasileiras'', revela Sérgio Ceron.


