São Paulo - O advogado Renato Rua de Almeida chegou mais cedo à Pontifícia Universidade Católica (PUC), onde é professor de Direito do Trabalho, para se confessar na missa das 18 horas, que costuma assistir na capela duas vezes por semana. Católico praticante, ele vinha adiando esse compromisso desde o ano passado, com certo peso na consciência, porque faz questão da confissão individual - ou auricular - apesar de participar, sempre que possível, da comunitária ou coletiva.
''É difícil a gente cumprir esse preceito da Igreja, porque não é toda paróquia que tem padres de plantão nos confessionários'', disse o advogado, queixando-se da falta de confessores disponíveis.
É também aos padres da PUC que Benê Sadi e Teresinha Crippa, paroquianas da vizinha Igreja de São Domingos, no bairro de Perdizes, recorrem mais de uma vez por ano para se confessar. ''A gente sabe que pode contar com isso, porque há sempre um sacerdote à disposição no confessionário, antes ou depois da missa vespertina'', disse Teresinha. ''E, quando há celebrações comunitárias, quatro ou cinco padres atendem aqueles que fazem questão da confissão individual'', acrescentou Benê.
Jorge Cláudio Ribeiro, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC, dá preferência à confissão comunitária. ''Minha última confissão auricular foi uns quatro ou cinco anos atrás, num dos retiros que fiz no centro de espiritualidade de Itaici, no município de Indaiatuba (SP)'', revela esse ex-aluno dos jesuítas, outro católico convicto, de missa e comunhão dominicais.
''É constrangedor falar de coisas particulares para uma pessoa que não se conhece'', observa o professor, para quem a ''confissão individual é muito invasiva para um penitente que tem dificuldade em se abrir para um padre desconhecido''. A não ser que se construa um vínculo, como se consegue em alguns casos, ''a confissão comunitária parece mais adequada''.
Confessionário - Dois padres fazem plantão, de manhã e de tarde, na Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, para atender quem quiser se confessar no centro da cidade. Há sempre fila à porta dos confessionários. ''Atendemos dezenas de pessoas todos os dias, porque quase ninguém ouve mais confissão'', disse o padre Romano Bevilacqua, um italiano de 83 anos de idade e 57 de Brasil, os três últimos nesse trabalho pastoral de ouvir e absolver pecados. Ele atende num confessionário imenso, tipo armário, onde os penitentes se protegem de olhares indiscretos.
A mesma coisa ocorre a pouco mais de 200 metros dali, no Convento de São Francisco. ''Os frades se revezam das 8h30 às 19 horas'', informa o pároco, frei Severino Clasen. Não há confessionários tradicionais - aqueles de grade e genuflexório que escondiam o padre atrás de cortinas - mas salas espaçosas e claras, onde o penitente se senta diante do confessor, como se fosse apenas uma conversa.
''O pecado é sempre um ato individual e, sendo assim, é bom que o perdão venha também pela confissão auricular'', observa d. Benedito Beni dos Santos, bispo auxiliar de São Paulo. ''O padre que vai absolver o pecador precisa conhecer seu pecado'', argumenta o bispo, em defesa do contato pessoal, em vez de uma celebração comunitária, só admissível, conforme orientação de Roma, em casos excepcionais.
Para o arcebispo de Brasília, d. João Braz de Aviz, é bom que a preparação seja comunitária, com uma reflexão feita em conjunto, mas a confissão e a absolvição devem ser individuais. ''Se há grande demanda de fiéis, os padres organizem mutirões para atender a todos'', aconselha. Na Semana Santa, d. Aviz passou 12 horas no confessionários da catedral.
Arrocho - A Província Eclesiástica de São Paulo, que compreende a arquidiocese da capital e oito dioceses vizinhas, vai determinar, em obediência à orientação do papa, que as paróquias valorizem a confissão individual e só promovam a celebração comunitária desse sacramento em circunstâncias excepcionais. ''Vamos coibir eventuais abusos, especificando em que casos pode ser dada a absolvição coletivas'', anuncia d. Beni.
A confissão auricular ou secreta dos pecados foi aprovada pelo papa São Leão Magno, no século 5, para acabar com o constrangimento da confissão pública, até então em uso.

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