Mais de 150 mil moradores de Curitiba já estão na chamada Terceira Idade. São trabalhadores e aposentados que passaram da barreira dos 60 anos e que esperam contar com todos os direitos que lhes são assegurados na Constituição Federal: saúde, segurança pública, aposentadoria por tempo de serviço ou por idade, moradia. Mas nem sempre todos estes direitos são de fato vivenciados. Não é difícil perceber as filas dos postos de saúde repletas de idosos que esperam, por horas, atendimento. A prioridade para entrar nos ônibus, por exemplo, nem sempre é respeitada. Principalmente nos tubos onde passam os Ligeirinhos. Ali, todos são atropelados diariamente por dezenas de pessoas que saem apressadas. Sem respeitar aqueles que querem embarcar - ou desembarcar do veículo de transporte coletivo.
Com 65 anos, o aposentado Irandi Coutinho fica revoltado com a demora no atendimento em postos de saúde de Curitiba. Ele diz que tem problemas cardíacos e mostra as cicatrizes no corpo para comprovar. ''Eu não estou me sentindo bem. Sou cardíaco. Preciso de atendimento. Vim aqui e me disseram para esperar que eles vão me chamar. E o pior: daqui 10 dias'', reclama. Ele mostrou o comprovante de inclusão em fila de espera. ''A gente paga anos o INSS e quando precisa do governo, não consegue atendimento. Vou ter que procurar um atendimento particular'', diz.
A empregada doméstica Roseli dos Santos Paez, de 61 anos, é outra a reclamar da falta de atendimento à saúde em Curitiba. Ela tem tendinite no cotovelo. Viúva e pensionista com rendimento de R$ 350, Roseli diz que precisa voltar a trabalhar para sustentar a casa (ela e o neto, de 18 anos, também desempregado). Mas não consegue liberação para trabalhar. Ou encaminhamento para uma cirurgia, o que deveria resolver o problema dela em curto prazo de tempo. ''Ou me encostam ou me encaminham para cirurgia. É tudo o que eu quero. Preciso voltar a trabalhar e não posso porque não tenho como segurar um copo com a mão direita. Meu cotovelo está inchado e não consigo atendimento. Sempre me dizem que tem mais de mil pessoas na minha frente'', observa.
O desespero para trabalhar tem razão de ser. Roseli paga R$ 200 de aluguel na casa onde mora e mais R$ 70 de telefone por mês. Com as compras de casa, não sobra nada para pagar qualquer outra necessidade pessoal (dela ou do neto). A tendinite de Roseli começou por conta das atividades que ela desenvolvia: carregava baldes, cortava gramas, virava terra. Trabalhou em Ponta Grossa, Palmeira e São Mateus do Sul antes de chegar em Curitiba - cidade que ela classifica como difícil. ''Choro, pego a Bíblia todos os dias e peço para Deus olhar pela Terra. Do jeito que tá, é difícil viver. Aqui a gente é humilhada, mal tratada, as pessoas agem de forma bruta por você ser idosa. Estou muito nervosa. O pobre sofre nessa Terra. Queria ter o poder de um político para mudar tudo isso'', reclama.
Se Curitiba não tem condições de dar conta dos idosos, a situação poderá piorar em 2010 - quando a população de idosos deverá chegar a 10% do total de habitantes. Um recente estudo sobre a população idosa de Curitiba revelou que 56% estão na faixa de 60 a 69 anos; 86% moram com a família; 46% têm quatro ou mais filhos vivos. Quarenta e nove por cento recebem até dois salários mínimos. Deste universo, 27% tem como rendimento até um salário mínimo. Os idosos são chefe de família (responsáveis pelos rendimentos da casa) em 62% dos domicílios. Sessenta e três por cento deles usam o Sistema Único de Saúde (SUS). A maior parte deles é alfabetizada: 87%.
Dos idosos pesquisados, 35% não têm nenhuma ocupação e 39% realizam serviços domésticos. As principais causas de mortes entre idosos são por doenças do aparelho circulatório, neoplasias, doenças do aparelho respiratório, doenças endócrinas e doenças do aparelho digestivo. A publicação ''Idosos em Curitiba - Avaliação das Condições de Vida'' foi lançado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).

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