IDÉIA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de abril de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
O desejo de um ancião de possuir uma virgem às vésperas de completar noventa anos pode parecer um relato de lascívia, mas não é. Ao final do livro de Gabriel García Márquez, concluímos que trata-se de um sincero relato sobre o amor, do tipo mais puro, que aflora já no entardecer da existência.
Esse sentimento devolve a energia acumulada de toda uma vida de solidão a um velho jornalista, que se debruça sobre seus antigos hábitos para escrever as memórias daquelas que o amaram, pois ele próprio, antes de procurar a cafetina Rosa Cabarcas, nunca tivera amado. Ao tentar concretizar seu desejo libertino, ele acaba louco de paixão por uma ninfeta, uma bela adormecida, que desperta nele um menino, que sai pelas ruas de bicicleta e destrói um quarto de bordel, tomado pelo ciúme.
Lançado em 2005 (escrito em 2004) Memória de Minhas Putas Tristes marca o fim de um jejum de dez anos de García Márquez. O escritor foi um dos protagonistas do realismo fantástico na literatura latino-americana, ao lado Júlio Cortazar e Jorge Luiz Borges. Em 1982 recebeu o Prêmio Nobel pelo romance Cem Anos de Solidão, que narra a saga da família Buendia por várias gerações na fictícia cidade de Macondo. Publicado em 1967, livro tornou-se um marco literário da língua espanhola.
Além da ficção, o autor possui vasta obra jornalística e uma autobiografia. Uma das características de seus romances - frases iniciais vigorosas - está presente em Memória, onde o personagem inicia o livro afirmando que se daria de presente ''uma noite de amor louco com uma adolescente virgem''. A sentença tem dois sentidos, um quando se inicia a leitura e outro quando termina. O protagonista consegue obter bem mais de uma noite de amor louco, consegue, enfim, encontrar o sentido que todos procuramos para nos sentirmos vivos.
Serviço:
- Memória de Minhas Putas Tristes; Gabriel García Márquez; Record; 2005; 132 páginas; R$ 26,00.


