O quadrinista brasileiro Lourenço Mutarelli as vezes deixa de lado sua prancheta de desenhos para dedicar-se à literatura. Foi assim em ''O Cheiro do Ralo'', seu primeiro livro, escrito em 2002. Mesmo utilizando outra linguagem para suas narrações perturbadoras, o autor mantém presente alguns elementos de suas HQs. Isso fica evidente em seu segundo livro: ''O Natimorto'' lançado em 2004. A obra poderia ser um roteiro para uma futura história a ser desenhada, um filme ou uma peça de teatro.
A porta de entrada para a irrealidade - característica das obras de Mutarelli - é a habilidade do protagonista em ler o futuro no verso dos maços de cigarro, interpretando as fotos como se fossem lâminas de tarô. ''Quem Fuma Não Tem Fôlego Para Nada'', nesta advertência ele enxerga o arcano número XII, o Enforcado, a vida em suspensão, o abandono e apatia. Suas justificativas para estas transposições encontram corrêspondencia com a realidade que se desdobra a sua frente. O Diabo, Os Amantes, A Morte, O Natimorto.
A ação é centrada nas divagações do personagem principal, o Agente, em meio a um novo talento musical descoberto, a Voz. Num quarto de hotel esfumaçado pelo vício compartilhado pelos dois, eles executam um musical silencioso. A Voz que não canta e o Agente que não age.
Lourenço Mutarelli é paulista, como autor de histórias em quadrinhos foi premiado 12 vezes com o HQMix. Entre suas obras, destacam-se Transubstanciação (1991), O Dobro de Cinco (1999) e A Soma de Tudo (2001). Seu romance ''O Cheiro do Ralo'' virou filme nas mãos do diretor Heitor Dhalia. Possuidor de transtorno mental, Mutarelli começou a desenhar como terapia durante um tratamento psiquiátrico.''Como o polvo, que ao se sentir ameaçado, solta tinta''.

Serviço
- O Natimorto, de Lourenço Mutarelli; 2004; Editora DBA; São Paulo; R$ 29,00

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