Idade avançada não impede a volta às aulas
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sábado, 01 de maio de 2004
Fabiana Caso 
São Paulo (AE) - Quantas pessoas gostariam de ter ido à faculdade na juventude, mas, por algum motivo, foram impossibilitadas? Com muita coragem, alguns matam a sede de conhecimento depois dos 50 anos, uma época em que, geralmente, a vida já se estabilizou.
Na maioria das vezes, voltam aos estudos pelo prazer de aprender, para manter a cabeça na ativa e ter contato com os mais jovens, e não exatamente para brigar por uma vaga no mercado de trabalho. Seja qual for o motivo, os mais velhos costumam enriquecer as aulas com suas histórias de vida.
No caso de Inajá Cuocu Huzs, de 61 anos, o impulso para entrar na faculdade veio de uma necessidade de carreira. Ela fez Ciências Sociais na juventude, mas interrompeu o curso no terceiro ano com o nascimento dos três filhos. Quando o caçula completou 5 anos, resolveu decretar o fim da vida de dona de casa.
Voltou ao mercado de trabalho na área de gerenciamento de vendas e o emprego em empresas de beleza levou-a aos cursos de estética. Também fez aulas de massagens e percebeu que seu real interesse era pela medicina oriental. Quando estava na faixa dos 40 anos, pediu demissão e foi à China fazer uma especialização em acupuntura. Passou um mês e meio lá e, na volta, montou seu consultório e começou a dar aulas em várias escolas de acupuntura.
No entanto, foi alertada de que passaria por dificuldades profissionais se não tivesse um diploma de fisioterapeuta. Passou pela frente da Faculdade Ítalo Americana, em Santo Amaro e, no mesmo dia, fez o vestibular. A nota, sem nenhum preparo prévio, foi 7,5.
Hoje, sua agenda está tomada: de manhã, vai às aulas; à tarde, atende em seu consultório; à noite, estuda e, nos fins de semana, viaja para dar aulas em todo o País. Jamais sentiu qualquer discriminação dos seus colegas de faculdade - a maioria na casa dos 20 anos. ''Comecei a absorver o linguajar dos mais jovens.'' Aluna aplicadíssima, ela não se conforma em tirar menos do que 8. Depois da colação de grau, pretende fazer o mestrado.
Bem diferente foi a experiência da empresária Ruth Nascimento, de 54 anos. Casada, com dois filhos, ela trabalhava com o marido na metalúrgica e na academia que dirigem. Quando seu filho André, de 20 anos, decidiu prestar vestibular para Ciências Contábeis, na Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), ela resolveu fazer também o exame, ''de brincadeira''. Acabou passando com nota mais alta do que a do filho.
No ano passado, o primeiro do curso, ela e André estudavam na mesma classe, mas cada um se sentava em seu canto. ''Fazíamos os trabalhos com grupos diferentes, mas, de vez em quando, ele pedia o meu caderno para tirar dúvidas e vice-versa.''
Hoje, no segundo ano do curso, é a ''mãezona'' da classe, na qual a média de idade é de 22 anos. ''Eles me pedem conselhos.'' Mas ela não pretende disputar vagas de trabalho com os jovens. ''Para mim, a faculdade é uma higiene mental.''
Várias faculdades mantêm cursos para a terceira idade. Geralmente, envolvem passeios e aulas de saúde, psicologia e artes. Na Universidade de São Paulo (USP), o programa Universidade Aberta à Terceira Idade ( 3091-3348) coloca o aluno maduro diretamente nas disciplinas da graduação, junto com os mais jovens. ''É muito bonito ver o entrosamento deles'', diz a coordenadora do projeto, a professora de Psicologia Social, Ecléia Bosi.


