Hugh, mascote da colonização
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
A cena é épica: um garoto nos braços do pai sob uma tempestade que desabava nas terras virgens cortadas pelo Rio Tibagi, uma corrida angustiante sobre a ponte recém-inaugurada. Com a chuva forte e a correnteza indócil, a corda que segurava a balsa se rompeu e a embarcação foi rio abaixo. E a passagem ferroviária era a única possibilidade de se avançar na viagem que havia começado em São Paulo e tinha como destino Londrina. O esforço do pai durou alguns minutos outro carro aguardava a família na margem oeste e deu final feliz à aventura - mas se eternizou na memória do senhor Hugh Muir Thomas, de 78 anos.
O idoso, filho único do escocês Arthur Hugh Miller Thomas (1889-1960), homem-forte da Companhia de Terras que desbravou o Norte do Estado nos anos 1930 e 1940, é um luxo que poucas cidades importantes podem ter. Ele é uma memória viva, que já ajudou muita gente a entender com suas narrativas o espírito da colonização, o ponto de partida de uma trajetória de vertiginoso sucesso.
O inglês engatinhou com Londrina e desde sempre colocou seus olhos azuis em ação, observou a construção daquele admirável mundo novo com os privilégios de uma mascote da companhia. Guardou a aventura daqueles homens rudes e determinados na cabeça e no coração. Hugh é um contador da nossa história com a autoridade de uma testemunha. Tanto que virou referência para as escolas do ensino fundamental e deu muitas palestras uma delas na escola municipal batizada com o nome do pai - até quando sua saúde permitiu. Doente, hoje ele lamenta a falta de mobilidade. Mas parece ter a sensação de dever cumprido.
Autor de três livros, Hugh não descarta um livro de memórias. Tem um gravador ao lado do sofá e quando a lembrança se cristaliza, ele registra tudo. Não se sabe o que as fitas cassetes guardam, mas como o pai, ele tem um mundo a desbravar. Tem décadas dedicadas a companhias multinacionais, viagens de negócios frequentes à Austrália, África do Sul e Cingapura. Tem dois anos de Exército britânico. Tem a chegada a Londrina, em 1985 ele nasceu em Londres, mas passou infância, juventude e vida adulta em São Paulo. Lembranças da Avenida Angélica e da Praça Buenos Aires. Tem a bem-sucedida criação de bezerros - chianina com nelore - na Fazenda Escócia, no distrito de Lerroville, já como homem maduro. Tem a experiência como revendedor automobilístico da marca nacional Gurgel em Londrina. Tem os três filhos, os oito netos e o bisneto.
No entanto, ele já planeja um capítulo só para Londrina, um lugar que ele não se cansa de dizer que ama. Um amor de orgulho benigno. "Um lugar do meu coração, onde eu quero morrer." Para ele, a cidade que completa hoje 79 anos tinha sabor, aroma, barulho, imagem de férias. O menino que vivia em um apartamento na grande cidade também achava tudo isso um eldorado irresistível. As viagens de trem, as voltas de triciclo no vagão, o casarão sede da companhia e as brincadeiras com os empregados. "Eles até me deram um carro de brinquedo, movido a bateria, uma miniatura muito bem feita." No seu pequeno bólido, ele percorria o entorno do casarão instalado na Avenida São Paulo, com faces para a Alameda Miguel Blasi e para a Avenida Paraná. E Londrina crescia tão rápido quanto o garotinho de longos cabelos louros.
Ele também lembra muito da Fazenda Primavera, onde a sede ficava encravada em uma parcela de mata nativa preservada. A mãe, a dona de casa Elizabeth Shirlaw Thomas, era fã de animais. "Tínhamos muitos cachorros, mas ela gostava ainda mais dos macacos", recorda-se. Segundo Hugh, pontualmente às cinco da tarde, ela trancava a matilha no canil. A partir daí, o quintal da casa era invadido pelos macacos. "Ela gritava: "Chicooooooo"! E eles vinham em bando". Dona Elizabeth alimentava os animais conforme a situação. Quando a família estava sozinha, ela fornecia milho aos primatas. No caso de ter uma visita, os macacos ganhavam bananas. "Quando eram visitas ilustres, minha mãe os presenteava com ovos de galinha." Mas ela tinha seus desapontamentos. Às vezes, os macacos confundiam os ovos com as peças de louça e acabavam "saqueando" a propriedade.
Dos dirigentes e trabalhadores da Companhia de Terras, ele lembra das muitas nacionalidades que ali conviveram e que acabaram dando as características cosmopolitas da cidade, uma escola que nem mesmo o curso de Línguas Modernas feito na Inglaterra superou. "Não tenho capacidade para dar um presente à altura de Londrina neste aniversário. Na verdade, o presente quem recebe sou eu. É a própria cidade."



