Já há vários anos, profissionais de saúde sabem que o atendimento de pacientes e familiares não pode ficar restrito à frieza ''técnica''. É necessário zelar também pela humanização nas relações, de forma que os envolvidos se sintam valorizados e seguros dentro de um ambiente que pressupõe apreensão e cuidados.
A Aliança Saúde Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Santa Casa, entidade que congrega os hospitais Cajuru, Santa Casa e Nossa Senhora da Luz, o Hospital e Maternidade Alto Maracanã (em Colombo) e o Plano de Saúde Ideal, aplica o conceito de diversas formas. O diretor geral da Aliança, Álvaro Luís Lopes Quintas, explica que existem quatro frentes principais: a Pastoral, o voluntariado, os projetos comunitários da PUC-PR e os grupos de humanização multiprofissionais.
''Estamos desenvolvendo projetos e ações para consolidar essa política de humanização, por meio do fortalecimento de relações éticas, cordiais e solidárias'', afirma o diretor. Entre os colaboradores, há diversas vertentes: treinamentos, capacitação, processos de integração.
Na relação com pacientes e familiares, através da ação de colaboradores e voluntários, o atendimento e a recuperação são incrementados através de iniciativas variadas como doutores da alegria, contadores de histórias, coral. ''Queremos abranger quatro grupos: colaboradores, pacientes, familiares e a inserção da sociedade. Não tenho dúvida alguma de que tendo colaboradores com essa cultura de humanização você tem uma acolhida muito mais eficaz dos pacientes e das famílias'', diz Quintas.
A reportagem da Folha acompanhou algumas dessas ações. No Hospital Cajuru, voluntários do Instituto História Viva, uma organização da sociedade civil de interesse público, promovem atividades de contadores de histórias, palhaços, música, pintura.
Roseli Bassi, coordenadora do instituto, explica que a entidade atua junto a outros hospitais além das unidades que compõem a Aliança Saúde. No Cajuru, o trabalho é vinculado ao setor de voluntariado social. ''Fazemos dois processos de seleção de voluntários por ano. A fila de espera tem atualmente 150 pessoas'', cita Roseli.
O estudante Rafael Piccin está no História Viva há cerca de um ano. ''Nos hospitais, conto histórias e faço outras atividades, com bexigas e desenhos, por exemplo. Acabo desenvolvendo muita coisa na hora, no improviso'', explica.
Na tarde em que a reportagem da Folha esteve no Cajuru, Piccin estava acompanhado de outra voluntária, a massoterapeuta Anna Carolina Beck. ''A sensação de ajudar alguém é gratificante'', explica Anna. ''Houve uma situação marcante no (Hospital) Cruz Vermelha. Antes, eu só tinha trabalhando com crianças, e naquele lugar só havia adultos. Um senhor de 85 anos não gostou quando chegamos, viu os narizes de palhaço: 'O que vocês estão fazendo aqui?'. Conversamos com ele, perguntamos se podíamos contar uma história... Depois percebemos que a assistente social estava chorando, a família daquele senhor também. Todos ficaram emocionados com a história. Ele mesmo mudou de postura e nos agradeceu'', lembra a jovem.
Piccin e Anna Carolina ajudaram a animar a pequena Sofia, de quatro anos, que estava internada no Cajuru porque havia quebrado o braço. A mãe da menina, a auxiliar de serviços gerais Valdirene Zetoles, fez elogios aos contadores de histórias.
''É importante o que eles fazem. A Sofia estava muito chateada. Nunca tinha acontecido dela ficar internada num hospital e ela estava assustada, com medo de que ninguém viesse visitá-la. Teve um pessoal que a levou para pintar pela manhã e depois vieram os contadores de histórias. Eles ajudaram a levantar o ânimo dela'', conta Valdirene.
Na Santa Casa, uma das iniciativas do Grupo de Humanização é o projeto A Vida é Bela, que oferece serviços gratuitos de cabeleireiro, barbeiro e corte de unhas para pacientes e acompanhantes. ''Vêm para o salão geralmente pacientes de longa permanência. Atendemos muita gente do interior'', explica Márcia Regina da Silva, assistente social e integrante da comissão que organiza o projeto. Ela relata que profissionais de três salões prestam voluntariamente o serviço.
Fuziko Nishi Azeka, do setor de cabeleireiros do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), presta serviço voluntário em hospitais e também em outros trabalhos comunitários, como o Ação Global. ''Depois de fazer 65 anos eu decidi ser cabeleireira. Eu dava aulas no Magistério. Hoje quero ajudar a deixar as pessoas bonitas'', ri Fuziko. ''O trabalho voluntário não tem sábado, domingo e feriado. Eu fico feliz em poder ajudar as pessoas''.
A dona-de-casa Júlia Machado, que estava hospitalizada na Santa Casa, aprovou o serviço. ''Estou falando para elas que vou querer voltar (risos). Gostei do trabalho delas, é um corte mais delicado...''

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