Hóspedes da história
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de junho de 2009
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Quando foi inaugurado, em julho de 1917, o Hotel Johnscher teve um papel de divisor de águas na hotelaria curitibana. Era luxuoso, para os padrões da época, e oferecia serviços de primeira classe para os hospédes, como o conforto de ter água encanada fria e quente no banheiro ou mesmo dispor de um banheiro dentro do quarto. "Uma senhora me contou que, quando era criança, ela veio com a família conhecer o elevador do hotel, um dos primeiros da cidade. Era como se fosse uma atração turística", conta uma das proprietárias do estabelecimento, Cláudia Belloni.
Após ser desativado em 1975, o edifício ficou abandonado até 2000, ano em que foi comprado e restaurado pela rede San Juan Hotéis. Durante dois anos de revitalização, foram resgatadas as características da arquitetura eclética, tendo como referência documentos da Casa da Memória e do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). O hotel foi reaberto em 2002. O edifício é uma unidade de interesse de preservação da história e da memória da cidade.
"Já foi o melhor e mais charmoso hotel de Curitiba. Era famoso também pelas festas de Natal que fazia, com orquestra e uma árvore gigante montada na frente. O nosso interesse nesse hotel foi justamente o seu valor histórico e a beleza do patrimônio", explica Belloni. Em 2008, o espaço reformulou o seu conceito para "hotel butique" e ainda resgatou a denominação original Johnscher. O estabelecimento tem 24 apartamentos amplos (45 metros quadrados em média), decorados no estilo colonial, sendo duas suítes masters no sótão.
"Até pelo número reduzido de apartamentos, oferecemos uma proposta de hotel mais intimista, aconchegante e também elegante. O conceito de hotel butique está surgindo agora no Brasil, geralmente, implantado em hotéis históricos, e costuma resgatar e preservar a arquitetura e mobiliário de época", informa o gerente do Johnscher, Paulo Sá, dizendo que os hóspedes do hotel têm o mesmo perfil do passado -executivos e profissionais liberais.
"O hotel pertencia à família Johnscher, que também construiu o Grande Hotel Moderno, na Rua XV de Novembro, que não existe mais", acrescenta Paulo Sá. Vestígios do antigo mobiliário do hotel, como um sofá e um relógio, além de objetos como telefone, máquina de escrever e prataria, da época da fundação do hotel, foram aposentados. Ficaram como herança e lembrança do passado apenas, não fazem mais parte da decoração do Johnscher.
O projeto de revitalização do hotel foi executado pelo arquiteto Humberto Fogassa -responsável por outras restaurações de patrimônio na cidade, como o Paço Municipal e o Castelo do Batel- em parceria com a empresa Planotel, que fez a adequação da estrutura do edifício. "O Johnscher é um exemplar da arquitetura eclética da cidade que precisava ser valorizado, por integrar um eixo cultural importante da cidade. Essa restauração contribuiu muito para a revitalização da (Rua) Barão de Rio Branco", contextualiza Fogassa.
Segundo ele, a restauração preservou elementos importantes e modernizou algumas estruturas inseridas, como equipamentos e instalações, para que o edifício tivesse continuidade de uso na atualidade. "No início do século 20, o hotel funcionava, recebia manutenção. Depois que cessou o seu uso, o edifício entrou em decadência e em estágio de degradação, principalmente, quanto aos aspectos internos. Intervir num patrimônio e, ao mesmo tempo, preservá-lo não é fácil. Não se pode descaracterizá-lo", pontua o arquiteto.
Chamam a atenção na arquitetura o pé direito alto (quase cinco metros), as esquadrias e as espessas paredes estruturais de tijolo maciço do Johnscher. Do lado de fora, a fachada foi totalmente conservada, inclusive no resgate das cores, descobertas pelos restauradores. Foi pintada em três tons -verde, branco e creme- mas o hotel refez a pintura de toda a fachada em branco, recentemente. "O mais importante dessa restauração foi o resgate do uso original do edifício, que era de hotel. Valorizou a história e o patrimônio, fazendo uma intervenção da forma mais sensata e coerente", conclui Humberto Fogassa.


