Hora de descentralizar
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quarta-feira, 03 de dezembro de 2008
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Gilberto Gil deixou o Ministério da Cultura (MinC) no último mês de julho, após um período de quase seis anos à frente da pasta. E se existiu alguma unanimidade positiva em sua gestão, esta foi a criação do programa Pontos de Cultura, baseado no fortalecimento de iniciativas comunitárias que promovem a criatividade popular.
Os Pontos de Cultura são projetos já existentes que, por meio de um convênio com o Governo Federal, recebem uma verba anual de R$ 185 mil (dividida em parcelas) para impulsionar suas atividades. Parte desse valor é utilizada para a aquisição de equipamentos multimídia, como computadores, estúdios de áudio, ilhas de edição, câmeras digitais, etc. De acordo com o site do MinC (cultura.gov.br), existem mais de 650 pontos espalhados pelo País, muitos deles em regiões remotas e carentes.
Há duas semanas, o ministério formalizou uma parceria com a Prefeitura de Curitiba para financiar 30 iniciativas do gênero na cidade, a serem escolhidos a partir de um edital. Consta no documento que a inscrição é aberta a "instituições da sociedade civil, sem fins lucrativos, legalmente constituídas, de caráter cultural ou com histórico de atividades culturais, sediadas e que atuem na produção artístico-cultural há pelo menos três anos no município".
O edital abrange diversas áreas, agrupadas em nove segmentos: culturas populares, grupos étnicos-culturais, patrimônio imaterial, audiovisual e radiodifusão, culturas digitais (internet, jogos eletrônicos), gestão e formação cultural, pensamento e memória, expressões artísticas e ações transversais (cultura e meio ambiente, cultura e educação, cultura e saúde, entre outras). Os projetos selecionados receberão, cada um, a quantia de R$ 180 mil, em três parcelas anuais de R$ 60 mil. A etapa de inscrições termina no dia 31 de janeiro de 2009.
Ainda segundo a página do MinC, o Paraná conta com 35 Pontos de Cultura, a maior parte deles na região de Londrina. Em Curitiba, um dos destaques é o Minha Vila Filmo Eu, ligado ao já conhecido Projeto Olho Vivo, que promove oficinas audiovisuais para públicos diferenciados.
Contemplado com os recursos do Governo Federal desde 2006, o Minha Vila... oferece cursos gratuitos de cinema para jovens da Vila das Torres, além de manter um cineclube aberto à comunidade. "Os participantes aprendem a manusear câmeras, editar conteúdos e escrever roteiros. A idéia é que aquela realidade seja mostrada do ponto de vista de quem mora ali", explica um dos coordenadores do projeto, o cineasta Luciano Coelho.
O valor do benefício é relativamente baixo, se comparado ao de outros editais de política cultural. Para administrá-lo corretamente, diz Coelho, é importante ter um objetivo bastante claro em mente. "Por isso o edital só contempla iniciativas que já funcionam. No caso do Minha Vila Filmo Eu, nossa experiência pesou muito", afirma.
Caderno Musical
Com sede em São José do Pinhais, o Caderno Musical é um dos primeiros Pontos de Cultura da Região Metropolitana. Criado por um grupo de jovens empresários locais, o projeto atua em duas frentes: internet e eventos.
O site cadernomusical.com.br é uma espécie de catálogo de músicos brasileiros. Utiliza a mesma ferramenta da Wikipedia, o que permite a colaboração dos internautas. No ar há cerca de um ano e meio, já conta com quase 300 "verbetes", 70 deles dedicados a artistas paranaenses. "Querendo ou não, nossa musicalidade ainda é meio marginalizada", diz Rafael Machado, um dos cabeças da empreitada.
O grupo também realiza festivais em faculdades e pocket shows, além de patrocinar espetáculos de música, teatro e dança. Para breve, está previsto o lançamento de uma rádio online. "Como nós, muita gente já queria desenvolver projetos específicos, mas não tinha recursos para isso. O Gilberto Gil só precisou colocar essas pessoas em atividade. Foi uma grande sacada", elogia Machado.
Quando Gil saiu do ministério, temeu-se pelo enfraquecimento do programa. Mas o lançamento de parcerias com governos estaduais e municipais, como em Curitiba, representou um alívio para os responsáveis pelos pontos. A única preocupação que restou, eles contam, é quanto ao atraso de parcelas. "Ainda não recebemos a segunda", revela Anderson Moreira, coordenador técnico e pedagógico do Cefuria (Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo).
Ligada a pastorais, associações de bairros e movimentos sociais, a entidade mantém um ponto equipado com um estúdio de gravação em áudio. A idéia é oferecer quatro cursos de capacitação para jovens até 2010. Entre os alunos da primeira turma, encerrada em outubro, havia indígenas e moradores de assentamentos. "Se o programa acabar, ou a política do governo mudar, vamos tentar manter o ponto com outros recursos, porque o resultado é impressionante", garante.
Mais informações sobre o edital no site da Fundação Cultural de Curitiba: fccdigital.com.br.


