Paulo Ubiratan
De Londrina
A imagem vale por mil palavras. Lá está ele, Honório Trintin, 86 anos, um dos poucos pioneiros vivos para contar a história de uma foto dos idos anos de 1934, quando Londrina começava a nascer. A cidade não tinha mais que 300 habitantes e quem chegava por aqui tinha que mostrar serviço. O que hoje se luta para preservar, naquela época se lutava para derrubar. ‘‘Era aquela mata fechada que tinha de ser aberta para dar lugar às casas e às lavouras. A mata era transformada em toras e as toras em madeiras que viravam muito dinheiro. Londrina explodia em progresso e já esperava o trem chegar’’, afirmou Trintin.
Realmente em 1935, um ano depois da foto ser tirada, era concluida a ponte sobre o Rio Tibagi. Era o que faltava para ligar Londrina por via férrea com o resto do Brasil. As imagens da foto evocam um interior pacato povoado de figuras, saltando dos contos lendários de uma cidade que queria crescer. Os personagens despertam terremotos da alma brasileira: a trágica necessidade de estar sozinho, em uma terra ainda desconhecida, com muita coisa para fazer.
Naquele trabalho, Trintin, com o vigor e os sonhos dos 21 anos, precisava juntar dinheiro para volta à cidade paulista de Sales de Oliveira para casar com Brasilina e trazê-la para Londrina. Ele veio para Londrina a convite de outro italiano, Antônio Fabrini, proprietário da serraria. Ele respeitava profissionalmente Trintin, como um dos melhores marceneiros daquela região paulista, pois além de artista ele tinha uma senso de organização invejável.
‘‘Eu exigia de mim e exigia dos outros. Era uma questão de sobrevivência. O regime que eu impunha no trabalho não era nazista, muito comum na época. Ele era fundamentado com disciplina e mútua confiança, entre empregados, chefe e patrão’’, afirmou. Trintin montou uma plaina (onde a tora é presa enquando é serrada). Ele conta que nesta primeira vez ficou cinco meses em Londrina e depois voltou para a sua terra. Nesta mesma época, a mãe morreu. Posteriormente ao casamento de duas irmãs, ele se casou com Brasilina. O casal teve seis filhos.
Trintin voltou em 1940 a Londrina e depois de um ano foi para Nova Dantzig, atualmente Cambé, onde foi trabalhar também em uma serraria. Até hoje ele mora naquela cidade, na mesma casa que construiu há 60 anos. Atualmente fabrica com capricho piões e sua residencia diariamente é invadida pela criançada. Trintin não esquece que foi proprietário em Londrina de dois terrenos onde construiu duas casas. Os terrenos estão localizada na esquina da Avenida Leste/Oeste e João Cândido. No dia que saiu com a reportagem ele fez questão de mostrar o local onde estavam as duas construções. Mais acima, depois de meia hora de procura, o pioneiro também localizou onde foi tirada a fotografia histórica.
‘‘Foi aqui. A serraria do seu Antonio Fabrini era bem aqui’’, garantiu. Segundo ele, a serraria ficava localizada entre as ruas Fernando de Noronha e Pernambuco, onde era o pátio de manobras da estação ferroviária. Ele disse que lembrava o dia da fotografia mas havia esquecido quem era o ‘‘retratista’’. Ele possui uma cópia da fotografia original, Apesar de não ter lembrado do nome do retratista, ele não esqueceu os velhos companheiros que compõe a foto: Joaquim Afonso Pinto, Orlando Fabrini, Euclides David, Antonio Fabrini, Estanislau (não sabia o nome completo), Renato Roncari e José Fabrini. Ele não garantiu se todos já morrreram. Trintin disse que a primeira serraria instalada em Londrina foi a da família Mortari e logo em seguida veio a dos Fabrini.
A foto ele guarda como um tesouro. Trintin tem certeza que sem a fotografia passaria desapercebido na história. ‘‘Igual a tantos outros pioneiros que não ficaram ricos mas ajudaram de forma definitiva a amassar o barro vermelho desta terra para edificar Londrina’’. A visualização do pioneiro não percebe o o outro lado da foto, quando ressalta que os flagrantes que se apresentam na fotografia do velho fotógrafo Juliani (de quem ele não lembrava o nome) mostram nos rostos, nas tradições e na filosofia de vida: a serenidade. O pioneiro não questiona a destruição necessária.
Será que esta foto tem a ver com século XXI? Ou já somos os ‘‘homens ocos’’ do ‘‘wasteland’’ de Eliot e apenas documentamos nossa rápida passagem por aqui? O pioneiro Trintin, do alto de sua sabedoria, resume-se em dizer não, absolutamente não.‘‘A mata era transformada em toras e as toras em madeiras que viravam muito dinheiro’’
Arquivo FolhaJoaquim Afonso Pinto/ Honório Trintin/ Orlando Fabrini (proprietário da serraria)/ Euclides David (carpinteiro)/ Antonio Fabrini (proprietário)/ Estanislau (ajudante)/ Renato Roncari (ajudante)/ José Fabrini (proprietário)/65 ANOS DEPOISHonório Trintin, no local onde foi tirada a foto em 1937Paulo WolfgangO pioneiro Trintin, em casa, com a foto original do pessoal na serrariaPaulo WolfgangDona Brasilina, a pioneira londrinense

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