Homens também são vítimas da bulimia
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sábado, 22 de maio de 2004
Roberta Pennafort<br>Agência Estado 
Rio - Anorexia, bulimia e outros transtornos alimentares não atormentam somente as mulheres. A procura por tratamento para doenças como essas é crescente entre os homens, como comprova o Núcleo de Transtornos Alimentares e Obesidade (Nuttra), que funciona na Santa Casa de Misericórdia do Rio. Lá, o volume de pacientes do sexo masculino subiu cinco vezes em 2003 em relação a 2002. Este ano, a cifra também está acima da média.
As mulheres ainda são a grande maioria, mas o crescimento da quantidade de homens chamou a atenção da diretora do Nuttra, a psiquiatra Paula Melin. No ano passado, 25 se inscreveram e 15 foram diagnosticados como anoréxicos e bulímicos. Em 2002, foram 3. A cifra de 2003 é maior do que a verificada ao longo de três anos, de 1999 a 2002: só 11. O núcleo deverá fechar 2004 com um recorde, já que, só de janeiro a abril, sete homens começaram a se tratar.
Paula Melin, que estuda o assunto há 17 anos, credita o aumento a vários fatores. ''Os homens estão se preocupando cada vez mais com o corpo perfeito e passaram a ser mais cobrados, como já acontecia com as mulheres'', acredita. Entre os que correm mais risco de desenvolverem transtornos estão os atletas que precisam se manter em forma e os homossexuais.
Mas isso não significa que os heterossexuais que não são esportistas estão a salvo. A., de 28 anos, designer gráfico, tinha namorada, emprego e fazia faculdade quando descobriu que precisava de assistência. Por um ano, vomitou involutariamente diversas vezes por dia, até mesmo durante o sono. ''Dormia com um balde ao lado da cama'', diz o rapaz, que frequenta o Nuttra desde junho do ano passado.
A. procurou médicos de diferentes especialidades e se submeteu a exames que nada indicavam, até que um psiquiatra lhe diagnosticou com bulimia. ''Eu sempre fui gordo e me incomodava com isso, mas não tinha consciência de que havia uma ligação entre o fato de vomitar e de querer perder peso'', conta. ''Fiquei muito surpreso quando soube. Para mim, bulimia era doença de modelo.''
Ele passou cinco anos induzindo o vômito até procurar ajuda especializada. ''Cheguei a vomitar até 30 vezes por dia. Era horrível, passava muito mal e sentia dores fortes nas costas, de tanto ficar abaixado.'' A doença tomou conta de sua vida.
A. terminou com a namorada, parou de trabalhar e trancou a matrícula na faculdade. ''Fiquei internado três meses porque o vômito não parava. Não podia sair para jantar, comer nada na rua, nem mesmo beber água, que passava mal. Eu me sentia sufocado pela comida e a solução era colocar para fora.''
Hoje, com a ajuda de terapia e orientação de nutricionista e endocrinologista, ele está um pouco mais controlado, mas ainda vomita três vezes ao dia, sendo que uma delas é involuntária. ''Minha meta é acabar com isso de vez e conseguir manter o peso. Quero zerar meu incômodo'', sonha. A. tem 1,84 metro e está com 85 quilos. Ele, que já teve 140 quilos, agora quer baixar para 75. ''Aprendi que minha relação com a comida tinha que mudar. Era o único jeito.''
Paula Melin explica que histórias como a de A. são comuns no núcleo. As pessoas chegam ao consultório sem saber o que está se passando. ''A maioria não sabe reconhecer os sinais. Isso nem passa pela cabeça deles. Quando sabem que estão doentes, ficam chocados.'' Ao contrário das mulheres, que buscam a magreza exagerada, os homens querem ficar fortes, ''sarados'', sem qualquer vestígio de gordura, só de músculo. ''A mulher anoréxica se vê gorda, o homem se vê fraco'', diz Paula.
Óbitos - Apesar das diferenças, os transtornos alimentares podem levar à morte tanto homens quanto mulheres. Na maioria das vezes, por parada cardíaca ou suicídio. A anorexia se caracteriza pela obsessão pela magreza em pessoas que sempre se acham muito mais ''gordas'' do que realmente são. A bulimia é associada ao exagero alimentar, seguido de vômitos, abuso de diuréticos ou de remédios para emagrecer.
Nas mulheres, os distúrbios causam interrupção da menstruação. Já os homens vêem diminuídos os níveis de testosterona e da libido e podem ficar impotentes. Entre eles é maior a ocorrência de suicídio em decorrência dos distúrbios. Nos dois sexos, há perda óssea, queda da unhas e dos cabelos, além de lesões no estômago, nas mãos e no céu da boca.


