Homem do dinheiro encontrou notas até nos sanitários
Homem do dinheiro
encontrou notas
até nos sanitários
Moreno mostrou carisma, parecia não apreciar a agressão física, tinha um comportamento camarada (para um sujeito armado até os dentes), exibia vagas inspirações políticas, liderava um grupo jovem e distante dos clichês criminais (com a exceção do Barba), mas num ponto permanecia irredutível: queria 30 milhões de cruzados e um ônibus para fugir. Nem mais, nem menos.
Habituado a lidar com cifras na sua rotina de trabalho, e com a experiência de gerente da agência Ouro Verde do Banestado, José Cotello foi o homem indicado para a missão de negociar o repasse do dinheiro com os ladrões. No dia de cão, Cotello foi o homem do dinheiro.
Abrindo caminho entre a multidão que lotava a avenida Paraná e as ruas vizinhas, ele fez ao todo três viagens entre o Banestado e o Banco do Brasil, situado a dois quarteirões e meio, portando malotes de numerário (o jargão dos bancos para denominar dinheiro). A inflação aumentava o número de notas e o peso dos malotes - a dinheirama lembrava a piscina do Tio Patinhas. Eu trazia o dinheiro sempre em notas médias. Pensava que, quando os assaltantes vissem um volume maior de dinheiro, se dariam por satisfeitos. Mas essa tática do gerente não deu certo. Moreno queria exatos 30 milhões de cruzados. Cotello tinha que contar nota por nota o dinheiro dos malotes. Entre uma viagem e outra, o ex-gerente via a comoção popular: A baldúrdia foi geral na Cidade. O espírito da massa é imprevisível. Parecia que o assalto era uma grande espetáculo, um grande Marques de Sapucaí.
O dinheiro do governo, como Moreno dizia, só chegou aos 30 milhões de cruzados novos pouco antes das 18 horas. Pelo cálculos de Cotello - ele está sempre acompanhado de sua calculadora - a soma exigida equivaleria hoje a R$ 700 mil. O ex-gerente ainda lembra de uma cena engraçada, no dia seguinte ao assalto: Nós encontramos dinheiro na privada do sanitário. Era o dinheiro que Moreno distribuía entre as vítimas. E que alguma vítima jogou na patente.
Advogado diz que
assalto foi véspera
da ingratidão
Hamilton Laertes de Araújo, advogado criminalista há mais de 30 anos, tem uma agenda com vários nomes anotados. Ao lado de cada um, cruzes. Elas representam seus clientes que foram assassinados. A lista reúne 56 pessoas que tiveram mortes violentas. Todo novo cliente meu vê esta lista. E também ouve algumas passagens deste livro. O livro em questão é a Bíblia. Usando os dois argumentos, o advogado tenta convencer cliente por cliente a deixar o mundo do crime.
No dia do assalto, Laertes estava chegando de moto a seu escritório, na rua João Cândido, quando encontrou o delegado Wanderci Corral Fernandes, que se dirigia correndo para a agência bancária. Wanderci lhe disse o que estava acontecendo. Laertes resolveu ir junto com ele para dentro do banco. Com minha experiência de advogado criminalista, conhecia a psicologia dos bandidos e ofereci meus conhecimentos para ajudar na negociação. Nesses momentos, você precisa entrar na lógica do assaltante, ganhar a confiança dele, para garantir que tudo saia bem no final. Foi o que eu fiz, explica.
Mas o dia do favor é a véspera da ingratidão, diz Laertes. Para o advogado, o que mais marcou no assalto foi a humilhação posterior à qual, segundo ele, muitas pessoas inocentes foram submetidas. Laertes foi questionado pela Justiça: suspeitava-se que ele tivesse ficado com cerca de 4 milhões de cruzados novos do assalto, dinheiro que o banco nunca mais recuperou. Esse drama para mim foi pior que o assalto em si, diz Laerte. E cita mais uma passagem bíblica sobre a ingratidão humana, contida no livro de Miquéias, para embasar sua contrariedade: Caça cada um seu irmão com uma rede...
Nada ficou provado contra Laertes.Nem todas as trevas são suficientes para esconder um só ponto de luz, prega o advogado. (Para reforçar o que diz, ele manipula o abajur da sua mesa de trabalho e dirige um facho de luz para a face do interlocutor.) O advogado foi refém dos assaltantes até o trevo de Uraí, onde o ônibus da fuga foi parado por uma barreira policial. De lá, segundo o relato de testemunhas, o advogado conseguiu sair com um polpudo malote de dinheiro, que devolvi no dia seguinte ao banco, como ficou provado. Ele critica duramente os que levantaram suspeitas sobre seu comportamento: Quem fala isso não arriscou a vida como eu e alguns poucos arriscaram para garantir as vidas humanas que lá estavam.
Laertes atribui as acusações recebidas ao preconceito da sociedade contra os advogados criminalistas. O advogado, na verdade, é o sal do peixe, importante mas nunca reconhecido. Voltaire escreveu que a advocacia é a mais bela das profissões, difamada pelos assaltantes de honras alheias.
Hamilton Laertes de Araújo pretende escrever um livro - Crônicas de um Advogado Criminalista. Possivelmente, vai narrar cenas marcantes do assalto ao Banestado. Uma delas foi o aplauso da multidão à saída dos assaltantes. Para Laertes, o aplauso simbolizou o espírito de revolta da população. Até hoje eu não sei quem é pior: o assaltante - claramente perigoso - ou o Estado e os bancos, que assaltam diariamente a população. Essa impressão ficou clara com as palmas para os sequestradores.
Depois do dia de cão, Hamilton Laertes de Araújo visitou Moreno na cadeia e lhe deu um presente. A Bíblia.
Por milagre,
ninguém foi morto,
diz jornalista
Na escadaria de Odessa, jazem centenas de corpos fuzilados pelo exército do czar.
Foi essa a imagem que veio à mente do jornalista Paulo Ubiratan, da Folha de Londrina, quando ele empurrou a porta de vidro do Banestado. Com a autorização de Moreno, obtida após rápida conversa telefônica, ele se ofereceu como refém e passou a ajudar na negociação com os assaltantes. Para a população e a imprensa, ficou marcada a imagem de Ubiratan carregando nas costas uma mulher que - hoje se sabe - fingia passar mal.
A cena da massacre de Odessa está no antológico filme O Encouraçado Potemkin, dirigido pelo russo Sergei Eisenstein na década de 20. Ao entrar no Banestado, o que Ubiratan viu foi algo parecido: um tapete humano de mais de 300 pessoas, comandadas por sete homens armados. Impressionado com a dimensão do drama, mas sempre de gravador em punho, o jornalista passou a negociar a libertação de reféns. Idosos, grávidas, crianças ou mulheres que estivessem passando mal foram sendo retiradas do local.
Aquele foi mesmo um dia de trabalho atípico para o repórter gaúcho.
Ao relembrar o episódio, o jornalista avalia que, depois do Plano Cruzado, o Brasil vivia uma processo de traição coletiva patrocinado pelo presidente da República. Aquela ilusão econômica do cruzado atingiu toda a população. Depois veio o fracasso. Os assaltantes acabaram aplaudidos porque estavam tirando de banco e do governo. Mas ele não acredita que o grupo tivesse uma orientação política definida. Para o repórter, os assaltantes apenas estavam dentro de um clima geral de revolta contra o poder público e o poder financeiro. Eles não tinham uma ideologia. Mas o Moreno era muito carismático, daria um grande líder político. Ele parecia um desses artistas de TV que aparecem e somem logo. O talento dele era a coragem e a sensibilidade. O Moreno não tinha aquele instinto do criminoso patológico. Era pobre, só sofreu durante a vida, assaltou o banco junto com pessoas novas e sofridas. Ele possuía aquela imagem entre o bandido e o redentor...
Em certo momento, Moreno disse a Ubiratan que o povo estava sendo espoliado pelo governo. Dez anos depois, Ubiratan acredita que o Brasil vive, ironicamente, um processo econômico bastante parecido com o de 1987.
Se não houve organização política do assalto, o jornalista até hoje suspeita que existia um esquema maior por trás de tudo. Um apoio externo que, segundo a tese de Ubiratan, acabou falhando. O repórter reforça a suspeita citando uma situação estranha: Durante a fuga com os assaltantes no ônibus, eles ficaram parados mais de meia hora num trevo próximo a Londrina. Por quê? Paulo Ubiratan acha que o grupo esperava algum tipo de ajuda, resgate ou contato no local - o que acabou não acontecendo. Talvez a idéia fosse aplicar o dinheiro do assalto em um esquema de roubo de carros. Nesse caso, o verdadeiro idealizador do assalto ao Banestado não seria nenhum dos sete assaltantes. Quem, então? Até hoje estou investigando, responde o jornalista.
Paulo Ubiratan revela que a Polícia Militar, sem o conhecimento do coronel Brueckmann, tinha um plano para invadir a agência, que felizmente não foi colocado em prática. Obtive essa informação de um policial, durante as negociações do assalto. Era o que eu mais temia que acontecesse, porque seria uma carnificina. Com 300 pessoas na agência, não havia a mínima condição de tiro, muitos inocentes morreriam.
No interior da agência, as horas passavam e surgiam momentos engraçados. A certa hora, uma velhinha reclamou para Moreno que precisava pagar a conta de luz. O assaltante fez um bancário abrir o caixa, deu dinheiro do assalto à senhora e a conta foi quitada.
Mas a noite de caça foi diferente - e muito tensa. No trevo de Uraí, um momento de extrema tensão aconteceu quando o ônibus da fuga foi abordado por policiais militares. Quando Moreno percebeu que havia PMs à espreita do ônibus, ordenou que o coronel, o delegado Wanderci e Paulo Ubiratan descessem para desarmá-los. Naquele momento os PMs poderiam ter disparado. Até hoje agradeço a eles por não terem feito isso. Os PMs foram desarmados, algemados e ainda levaram uma descompostura do coronel Brueckmann: Se eu precisasse de homens, tenho um batalhão inteiro à minha disposição! Detalhe: o carro dos PMs recebeu uma rajada da metralhadora de Moreno. Os PMs nada sofreram.
A noite da caça já tinha virado manhã quando os assaltantes fizeram a última troca de ônibus. Desse instante, o jornalista Paulo Ubiratan guarda uma lembrança vívida. O ônibus levava crianças e bóias-frias. Era a rodovia Castelo Branco, no Estado de São Paulo. Aquele ônibus mostrava um retrato social do Brasil, diz Ubiratan.
Olhando pela janela do ônibus, reféns e os passageiros do ônibus acompanhavam o movimento de soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que se preparavam para combate às margens da rodovia. A certa altura, os assaltantes resolveram parar uma caminhonete, levando o coronel Carlos Brueckmann, e o ônibus com os reféns foi seguindo atrás deles.
Mas a PM paulista não teve dúvidas. Atirou - no ônibus e na caminhonete - para matar. Deitados no chão - mais uma vez - os reféns viam a chuva de balas sobre o ônibus. Por milagre, ninguém foi morto. A Polícia Militar paulista agiu com irresponsabilidade. Quando acabou o tiroteio, Paulo Ubiratan saiu do ônibus e criticou a atitude dos policiais: Vocês foram tão bandidos quanto eles.





