HOBBY CLANDESTINO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
"Só quem é louco pira junto no balão", diz a letra de um rap que circula na internet. Para os aficionados, é realmente difícil explicar o fascínio pela prática, muitas vezes transmitida de pai para filho.
"Gostar de mulher é fácil. Mas vai tentar entender porque alguém gosta de papel e cola. É um vício", brinca o comerciante e produtor de eventos Faxada, de 22 anos. Como tantos outros, ele se "converteu" ainda na infância, ao ver o pai soltar balões em festas de família. Hoje, mantém um blog sobre o assunto e produz a série de DVDs CWB Balões, que já está na sexta edição.
Faxada também faz parte da equipe Garagem, uma das muitas espalhadas por Curitiba e Região Metropolitana. Ele começa uma lista e não consegue parar: Elite, Oxigênio, Labareda, TVO, Arte Probida, Turma da Lua, Domínio da Arte, Vagalume, Arte Eterna, Zepelin Sul... Há até um grupo dedicado exclusivamente aos resgates, o Carrapeta.
Sair à caça de balões é um expediente tão comum quanto a soltura. O objeto recuperado pode voltar ao céu ou ser reciclado, mas também vale como um troféu. Por isso, não são raras as ocorrências de brigas e acidentes de trânsito durante as maratonas. "Você fica cego. Não quer saber se tem um rio, uma cerca ou um muro na sua frente", diz Faxada, ele mesmo um adepto dos resgates.
As equipes têm, em média, 10 integrantes. Cada um é responsável por uma parte do processo - do design à soltura. Algumas não contam com projetistas em suas fileiras, e por isso contratam serviços "terceirizados". Nesse caso, chegam a desembolsar R$ 300 por um único trabalho.
Membro de um dos grupos mais tradicionais da cidade, a Turma da Lua, Gordo, 34, está no meio há 20 anos. Também cresceu assistindo ao pai soltar balões com os amigos, porém só passou a construí-los depois que ele morreu.
O "estalo" para começar veio de uma reportagem sobre o tema exibida no antigo programa de tevê Comando da Madrugada, do jornalista Goulart de Andrade. "Vi aquelas obras de arte indo para o céu e fiquei louco. Hoje, percebo que fazer balão é uma forma de estar sempre perto do meu pai", reflete.
Gordo é formado em Administração de Empresas e atua na área. Mas já vendeu papel de seda para se sustentar. "Construí uma casa só com o dinheiro do papel", afirma. Ele conta que empresários do setor, e também do ramo de fogos do artifício, costumam patrocinar concursos de balões, os chamados Bocas de Ouro.
A rivalidade entre as equipes, Gordo garante, para por aí. "Na verdade existe uma união. Muitas vezes, as turmas fazem vaquinhas para pagar os estragos causados na casa de um vizinho".
E por falar em estragos, os baloeiros acreditam que apenas 2% do que é solto cai em chamas. "Hoje em dia, com a evolução dos balões, eles começam a apagar meia hora antes de chegar ao chão", afirma Gordo.
Para Faxada, quem prejudica a imagem do movimento são os marinheiros de primeira viagem, garotos imprudentes que aprendem pela internet e mandam trabalhos mal acabados para o céu. São esses, segundo ele, que causam incêndios. "Leva dois anos só para você começar a entender como a coisa funciona", diz.
Seja como for, o risco existe, não dá para negar. Ainda assim, os aficionados seguem desafiando a lei. Ou melhor: ignorando.
"Nós simplesmente não reconhecemos uma lei que vai contra a cultura e o folclore de um povo", justifica Gordo, favorável à regulamentação. "Por que não normatizar? Você não imagina a emoção que é ver centenas de crianças olhando para o alto, encantadas com um balão", arremata.


