Histórias fantásticas
O emaranhado de túneis que existem no subterrâneo de uma grande cidade é uma metáfora assombradora do cérebro humano e seus neurônios. Ambos (túneis e neurônios) são caminhos desconhecidos, sem luz na maioria das ramificações, pulsando energia e movimentando tudo - corpo e cidade. Conversar com o empresário Marcos Juliano Ofenback é ser levado pela empolgação de suas ondas cerebrais; é acreditar em conspirações, sociedades secretas, acontecimentos inimagináveis que se desenvolveram bem abaixo de nossos pés. O empresário não está interessado na história oficial de Curitiba. Ele quer saber do que aconteceu debaixo da terra. É nisso que ele acredita, pesquisa e acaba por fazer as pessoas acreditarem também.
Para quem não ligou o nome à pessoa, uma lembrança. Ofenback ficou conhecido em meados de 2007 por levar a todo canto (páginas de revistas e jornais, programas de televisão) uma história que define como fabulosa; no limite da fantasia. A história diz respeito ao túneis secretos que, segundo Ofenback, cortam todo o Centro de Curitiba. Esses túneis não são galerias construídas para escoar água da chuva ou esgoto, são caminhos escondidos que durante muito tempo ligaram igrejas, clubes sociais, sedes do governo, residências das grandes famílias.
Imagine a Curitiba do século XIX ou a que existiu durante a Segunda Grande Guerra, na década de 40. Pense que nessa época, pontos importantes da cidade, como a Igreja Matriz e o Clube Concórdia, eram interligados por debaixo da terra, para uso militar. Como Ofenback, acredite na realidade desses fatos e uma história fantástica se faz diante dos olhos. Os militares usaram esses túneis durante a guerra para se proteger, afirma o empresário. É uma outra Curitiba - histórica, conspiratória, misteriosa - que se apresenta. Ainda assim uma Curitiba invisível. Muitos desse túneis, no entanto, não precisam de imaginação: eles existem.
Entre os já tornados públicos pelo empresário está o do Clube Concórdia, reduto alemão em Curitiba. Um alçapão em uma das salas do clube serve de entrada para o local que, depois de alguns metros, é interrompido por uma parede. Na Sociedade Garibaldi, Ofenback diz que há um túnel semelhante. Já na Igreja Matriz, a entrada para o túnel que a ligaria com outros pontos subterrâneos do Curitiba está tampada, mas é possível ver parte da escada usada para descer. Os túneis eram construídos debaixo das igrejas pois estas não eram bombardeadas durante as guerras, explica o pesquisador.
Indícios dão conta ainda da existência de ligações secretas no Colégio Estadual do Paraná (Ofenback procurou, mas não achou), em pontos altos do bairro Pilarzinho, em residências no bairro Mercês. Na esquina das ruas Riachuelo e Carlos Cavalcanti, um túnel teria funcionado como depósito de armas para o exército, na Segunda Guerra; na Rua Barão do Rio Branco, túneis ligariam as antigas casas da região. A descoberta mais recente de Ofenback foi uma entrada em um terreno em frente à Câmara Municipal. O buraco, com uma escada deteriorada, tem quase seis metros. No local, funcionava, em meados do século 20, um depósitos de bondes. Ofenback investiga ainda a existência de túneis em quase todas as igrejas da região central. É assim em quase todas as grandes cidades, resume.
Nada, porém, pode ser provado com certeza - nem a existência de dessas ligações, nem a sua real utilização. De acordo com o pesquisador, quase não há documentos sobre o assunto, o que impede de comprovar datas de construção ou quais as finalidades dos túneis.
Mesmo que tenham existido (ou ainda existam) de fato, é quase impossível que as ligações estejam intactas, já que os prédios mais modernos exigem a construção de fundações que podem ter interrompido os caminhos. É um mistério que, talvez, nunca poderá ser provado ou percorrido. O que não deixar de motivar Ofenback, que fala com empolgação de seus planos, ideias, projetos - estes sempre envolvendo os túneis, tão misteriosos e intrigantes quanto as ligações cerebrais. (T.A.)





