Em 1941, o Brasil vivia sob a era do Estado Novo de Getúlio Vargas. No mundo, a segunda grande guerra já estava em seu terceiro ano. Enquanto isso, a promissora terra no Norte do Paraná, a oeste do rio Tibagi, chamada de Londrina pelos seus fundadores ingleses, já completava 12 anos de desbravamento e atraía gente de tudo quanto é canto.
Foi nesse ano que Edgar Consulin desembarcou por aqui, vindo com a família de Ribeirão Claro, cidade do Norte Pioneiro do Paraná, encostadinha no estado de São Paulo. Aliás, ele conta que, naquela época, para quem morava nas cidades hoje centenárias do Norte Pioneiro, Londrina não passava de uma promessa encravada no sertão.
Nascido em 1925, o pioneiro era um rapazote de 16 anos, mas se lembra muito bem das oportunidades que a nova cidade oferecia. ''Tinha serviço em qualquer lugar'', recorda. Tanto é que rapidinho arrumou um emprego como balconista nas Casas Fuganti, empresa que, por vários anos, foi a principal referência comercial do norte do estado.
Simpático, de bom papo, Consulin guarda na memória boa parte do desenvolvimento do Norte do Paraná. Sentado em um banco do Zerão, local por onde caminha diariamente, o pioneiro contou a sua história para a FOLHA.
Datilografia salvadora
Uma das narrativas das mais interessantes é de 1946, quando o então balconista foi convocado para servir o Exército Brasileiro. Depois de um ano em Curitiba, alguns jovens foram selecionados para seguir adiante na carreira militar. Seriam encaminhados para a capital federal da época, Rio de Janeiro. A Segunda Guerra Mundial acabara um ano antes, mas o medo de ir para o front de batalha atormentava o jovem soldado. No entanto, ele escapou da carreira militar graças ao seu conhecimento de datilografia.
''Eu era o único que sabia datilografar, por isso fui encarregado por um tenente de copiar a lista daqueles que iriam para o Rio. Meu nome estava na lista, mas eu não o datilografei e acabei voltando para Londrina'', relata.
Em 1949, ele topou o desafio de uma loteadora de se transferir para Alto Paraná, (10 km a leste de Paranavaí) e montar uma loja que vendia de tudo, a exemplo das Casas Fuganti. Foi lá que ele se casou com Matilde Consulin e teve seus três filhos.
Com o tempo, os filhos foram crescendo e ele resolveu voltar para Londrina. ''Todo mundo dizia que o meio do mato não era bom lugar para educar as crianças. O melhor era um bom centro urbano. Isso foi por volta de 1965. A 'Pequena Londres' já estava bem crescida. Então, voltei'', explica. Com a venda de uma propriedade rural em Alto Paraná, ele montou a Consulin Imóveis, imobiliária que existe até hoje.
Café exuberante
''As lavouras de café estavam no auge. Era impressionante como a planta evoluía bem, sem necessidade de adubos ou agrotóxicos. Todos os donos de cafezais eram ricos. Naquele tempo, qualquer um topava ser fiador para o aluguel de imóveis. Não dá nem para calcular quantas casas eu aluguei. Londrina era uma cidade na qual era fácil fazer negócios'', rememora Consulin.
No entanto, em 1975 veio a geada que dizimou os pés-de-café de toda a região. ''Aquilo repercutiu no Brasil inteiro. Parou tudo por aqui, inclusive a minha imobiliária. Mas depois as coisas foram se ajeitando'', ressalta.
Convidado a opinar sobre a Londrina de 2007, ele faz questão de dizer que não troca a cidade por nenhuma outra do mundo. ''Na década de 1940, as pessoas vinham para cá com o ideal de ficar pouco tempo, ganhar dinheiro e ir embora. No entanto, 90% desses 'aventureiros' acabaram ficando por aqui, pois é um lugar muito bom. Hoje, o que está faltando é um pouco mais de oportunidade para os jovens trabalharem'', opina.
Para finalizar, o pioneiro, que já tem 10 netos e dois bisnetos e 58 anos de casado, é desafiado a revelar qual é o segredo para chegar aos 82 anos de idade com vitalidade e disposição para caminhadas diárias. Sem se fazer de rogado, ele é objetivo. ''Basta não guardar rancor de ninguém e ter uma vida regrada, dormindo na hora certa e comendo o necessário.''

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