Para o mundo cristão, Deus é representado pelas letras gregas alfa e ômega, que traduzem um dos aspectos de sua onipotência: a eternidade. O sagrado é um universo cujos mistérios a Ciência e a Fé tentam penetrar e desvendar, gerando discussões que, à sua semelhança, também são infinitas.
Na época do Natal, especulações e pesquisas científicas sérias orbitam ao redor até dos céticos, reacendendo ainda mais esse interesse pelo divino.
Aos que desejam saciar a sede de explicações, investigações recentes fazem coro, anunciando o nascimento de algumas respostas, que surgem a partir de perguntas como: ''Cristo nasceu antes ou depois de Cristo?''.
O questionamento parece absurdo, mas ajuda a iluminar a noite escura em que se converte o parco conhecimento que a humanidade tem sobre Jesus de Nazaré histórico. Ampliando essa observação com o rigor da ciência mais antiga - a Astronomia -, voltamos até o dia em que Jesus nasceu, que, diferentemente da pregação cristã, que assinalou o dia 25 de dezembro, marca meados de agosto, sete anos antes da data fixada como a do nascimento - o que revela que realmente Cristo histórico teria nascido prematuramente do que convencionou o Cristianismo.
Nesta reportagem, a Astronomia aponta para o céu de hoje, que, em 2006, mantém-se igual ao firmamento do presépio, explicando também a aparição da estrela de Belém, que alguns pesquisadores acreditam ter sido uma aparição do cometa Haley, mas que se tratou de um fenômeno astronômico.
Também aprenderemos a simular no computador o céu do dia do nascimento de Jesus Cristo, podendo comparar com o atual e constatar as semelhanças.
Realmente, Jesus nasceu antes de Jesus. Nessa afirmação não existe nenhuma intenção de melindrar o mundo cristão, mas apenas demonstrar as consequências da mudança na marcação do tempo.
Para chegar a essa conclusão, que esclarece dúvidas sobre a data exata do nascimento de Cristo, a Ciência leva em consideração a história de Herodes (73 a.C. - 4 a.C.), rei da Judéia, que viveu entre os anos de 37 a.C. e 4 a.C.
Ele ficou conhecido por sua oposição aos judeus ortodoxos e ter tentado matar Jesus, segundo o testemunho do Evangelho de Mateus.
A maior parte do que conhecemos sobre a vida de Herodes é narrada pelo historiador judeu Flávio Josefo e o que nos interessa para definir o nascimento de Jesus é, justamente, a data da morte do rei da Judéia em 4 a.C.
''Documentos históricos indicam que Jesus tinha três anos quando Herodes morreu. Assim, sabe-se hoje que Jesus nasceu em 7 a.C, o que significa que nasceu sete anos antes dele mesmo nascer, como se convencionou. É claro que esse trocadilho é uma brincadeira, mas a verdade é que um erro no calendário fez com que tivéssemos esses sete anos de diferença entre o início da contagem de nossa era e a data real do nascimento de Jesus. Sabe-se também que o seu nascimento não ocorreu em dezembro, mas entre os dias 15 e 18 de agosto'', afirma a astrofísica, com doutorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Rute Helena Trevisan, docente do Departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Em 1582, o Papa Gregório XIII determinou a mudança no calendário, que substituiu o Juliano, alterando a data do nascimento de Cristo, passando a ser utilizado na maior parte do mundo e em todos os países ocidentais.
A Bíblia narra a visita dos Reis Magos a Jesus, sábios com conhecimentos astronômicos e que teriam seguido uma estrela que indicava o local do nascimento do menino.
Para se ter uma idéia do que os Magos representavam, o desejo de desvendar os segredos do universo já frequentava a casa dos faraós do Egito e há 5 mil anos a.C., os chineses tinham conhecimentos sobre o eclipse.
''Dominar conhecimentos astronômicos para os povos antigos era uma questão de sobrevivência porque, entre outras coisas, sabiam o tempo certo de plantar e colher. Para compreender essa importância, os astrônomos eram obrigados a avisar a população sobre a ocorrência de um eclipse, porque acreditavam que se tratava de um dragão que comeria o sol. Para evitar que isso acontecesse, as pessoas batiam nas paredes para espantar a fera. Uma história real conta que, certa vez, dois astrônomos teriam bebido muito, esquecendo de avisar o povo sobre o fenômeno. O imperador mandou decapitá-los'', comenta Rute Helena.
Sem a pretensão de pôr lenha na fogueira religiosa ou científica entre os que defendem a aparição de uma estrela e os que apostam numa evidência da passagem do Haley, respectivamente, a astrofísica afirma que o que se viu na noite do nascimento de Jesus foi o alinhamento dos planetas Saturno e Júpiter.
''Os dois planetas são bem brilhantes em sua conjunção, formando quase que um astro único, sobressaindo-se do resto. Essa poderia ter sido a estrela de Belém. Não seria o Haley porque não havia uma cauda, como ocorre nos cometas'', explica Rute Helena, acrescentando que o fenômeno não tem nenhuma influência sobre a natureza, a exemplo das marés, ou sobre os homens.
Ela também destaca que, curiosamente, a conjunção se deu na constelação de Peixes, palavra que representa um dos símbolos mais antigos dos primeiros cristãos ao se referirem a Jesus ressuscitado. Na época das primeiras perseguições, a palavra ''peixe'', escrita em grego, passou a ser lida ''Jesus Cristo Filho de Deus Salvador''.
Para os que têm a curiosidade de saber como era o céu do presépio contemplado pelos Magos na Noite de Natal, a astrofísica explica que é semelhante ao que temos sobre as nossas cabeças, sendo que a configuração muda somente de nove em nove mil anos devido ao movimento de precessão do eixo de rotação da Terra. ''Com isso, a cada 18 mil anos o céu está igual. A cada período desse, esse eixo dá uma volta completa como um pião'', afirma Rute Helena.
As discussões sobre Jesus histórico não têm fim, um aspecto contido também no Cristo bíblico. Os que não querem encerrar o assunto nesta reportagem podem simular o céu da Noite de Natal. O procedimento é simples, basta entrar no site www.sidewalkastronomy.com/skyglobe.html. Veja instruções no gráfico acima.

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