Histórias de jornaleiros
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Os dias em que Dona Lola mais vendeu jornal em seus 75 anos de vida tiveram como manchetes as mortes de Getúlio Vargas (1954) e Robert Kennedy (1968). Para comemorar, hoje, o Dia do Jornaleiro, a FOLHA DE LONDRINA conta histórias de alguns dos profissionais mais experientes de Curitiba. Nenhum deles, porém, continua na atividade há tanto tempo quanto Dona Lola.
De batismo Leonor Santos Zem, a senhora simpática cuja banca leva o seu apelido e hoje se encontra na esquina da Marechal Deodoro com a Monsenhor Celso, nem pensa em aposentadoria. Ela começou no ofício na banca de seus pais em 1945, aos 13 anos, em uma época em que elas não usavam nomes fantasia.
Era uma casa de madeira, uma meia-água na Victor Ferreira do Amaral, no lugar onde depois seria construído o Restaurante Boi Gordo. Passava por ali todos os dias Zildo Gasparin Zem. Sobre ele, a jovem Lola recortou de um jornal a manchete Craque da 3ªdivisão em Cogitações do Bloco Esportivo Morgenau. Pouco depois, o médio-avançado viria a ser seu marido. O recorte, Lola guarda plastificado até hoje.
Da FOLHA DE LONDRINA a lembrança mais forte ela estampa, com orgulho, em uma das paredes de sua banca. É a reportagem Lola é jornaleira há 60 anos. Sobre a profissão, ela descreve, enfática: Acho que é um bom negócio.
Quando tinha 14 anos, Antônio de Souza, o Toninho, trabalhava na Casa Prelúdio, que entre outros jornais e revistas distribuía a FOLHA DE LONDRINA. Sobre o jornal, ele diz que a Folha Rural, que circula aos sábados, não pode deixar de existir.
Hoje, aos 51, Toninho é dono da Revistaria Bom Jesus, na Rua Jaime Balão. Entre três mil títulos de revistas nacionais e importadas, seu acervo é um dos maiores da cidade. Para evitar polêmicas, porém, ele prefere não entrar nessa discussão. Ele teve a sua primeira banca aos 18 anos, em 1976, na Rua XV. Em 1982, depois de passar pelo exército e pela Distribuidora Ghignone, comprou a sua revistaria. No início, era instalada em uma garagem; hoje, tem mais de 50 m2.
Em uma das paredes, a lembrança de um dos clientes mais ilustres: uma réplica de uma pintura de Poty presenteada por João Lazzarotto, seu irmão. Toninho tem um fiel escudeiro, Alexander Leo, 36 anos de idade e seu funcionário desde 1985. Alexander lembra de uma das histórias mais curiosas que viveu na revistaria. No final dos anos 1990, uma dupla de assaltantes trapalhões entrou na loja, um deles deu voz de assalto e, acidentalmente, derrubou a espingarda que carregava no chão. Só não deu para dar risadas na hora, diverte-se.
Mudei do banco para a banca, conta o ex-bancário Renato Lago, 57, dono da Banca Estação, na Marechal Floriano esquina com a Avenida Sete de Setembro. Prestes a ser demitido pelo Banco Noroeste (hoje, Santander), em 1985, ele vendeu sua linha de telefone e comprou o negócio de um professor do antigo Cefet (atual Universidade Federal Tecnológica do Paraná - UTFPR) pelo preço equivalente ao de um carro zero. Desde aquele momento, ele divide a tarefa com a esposa, Maria Neci dos Santos Lago, que trabalha ali pelas manhãs.
Quando a banca ainda era do modelo antigo, de zinco, como poucas ainda o são, uma tempestade fez com que perdesse de 30 a 40% de seu acervo. Na sua banca atual, moderna, ele mantém um aviso em papel que explica como pegar os ônibus na região. Me poupa saliva. É explicação demais.
Quanto aos dias que Renato Lago mais vendeu jornais, estes foram dois: na morte do campeão brasileiro de Fórmula 1 Ayrton Senna, em 1994, e na ocasião em que José Sarney congelou os preços, na década de 1980. Acredite se quiser, vendi mais de 500 jornais naquelas ocasiões.
Olha, no começo, eu tinha até vergonha da profissão. Tinha essa idéia de que era uma coisa de velho ficar atrás do balcão. Osni Pavani, 46, o responsável pela afirmação, logo mudou de idéia.
Recém-chegado de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), ele abriu uma banca com seu pai, em 1980. Logo instalou uma estrutura de acrílico, a qual ainda resiste em alguns pontos da cidade. Hoje, a Revistaria Cultural, de Pavani, que fica na Rui Barbosa, é de aço e vidro temperado.
Há 14 anos, entrava na sua banca a jovem que viria a ser a sua mulher. Ela veio acompanhada de uma amiga minha. Falei que gostaria de conhecê-la. Ela veio até mim e disse: Prazer, Marciane. Hoje, aos 34 anos, responde por Marciane Domingues Pavani. Ele trabalha na revistaria pelas manhãs. Ela, às tardes.
Da FOLHA DE LONDRINA, Osni não esquece de uma reportagem sobre o Parque Estadual Mata dos Godoy. Lembro que tinha uma foto de uma Peroba igual a uma árvore que fez parte do cenário na minha infância no Norte do Paraná. Quanto à profissão de jornaleiro, ele é certeiro. Muita gente fala que ao longo do tempo vai acabar. Mas quando você se especializa e é bom no que faz, não corre o menor risco.
Ele conta que pretende entrar no livro dos recordes. Isso mesmo. Como o jornaleiro que mais deu informações na história. É só calcular uma média de 50 por dia, seis dias por semana durante 28 anos.
RAIO X
- Paraná tem cerca de 1.800 bancas de jornais, sendo que 550 estão instaladas em Curitiba.
- Estima-se que quase 4 mil pessoas trabalham diretamente nas bancas do Paraná. Em Curitiba são cerca de mil pessoas
Fonte: Sinjor/PR


