A história de uma cidade não é feita só de passagens bem documentadas e episódios célebres. Casos cercados de mistério também revelam aspectos importantes da cultura de um povo. Em Curitiba, histórias de assombração e lendas urbanas se mantêm vivas contadas pelas próprias testemunhas dos fatos ou reproduzidas ao longo de séculos.
A museóloga Silvia Marize Marchiorato, funcionária do Museu Paranaense há 28 anos, conta que na década de 90, quando a sede do Museu ainda ficava no Paço da Liberdade, na Praça Generoso Marques, no Centro, era comum ouvir histórias de assombração contadas pelos guardas do período da noite. ''Eles viam uma mulher de branco descer as escadarias arrastando alguma coisa. Eu até achava graça mas eles tinham receio'', lembra Silvia.
Funcionário do Museu Paranaense naquela época, Amaral de Oliveira Reis, que hoje trabalha no setor de segurança do Museu Alfredo Andersen, garante ter testemunhado o estranho fenômeno que amedrontava os guardas noturnos. De acordo com Oliveira, depois de encerrado o expediente, o diretor do museu pediu que ele ficasse lá até o vigilante da noite chegar. Enquanto aguardava na portaria, ouvindo um radinho a pilha, ele foi surpreendido por uma estranha experiência. ''Não tinha mais ninguém no museu. Então eu ouvi alguém descendo as escadas e fiquei de pé na beira do balcão esperando. Quando o barulho chegou perto de mim, parou. A pessoa sumiu'', relata.
Oliveira lembra que os funcionários também diziam ouvir pessoas pedindo socorro e gemendo. Mesmo depois de ter sentido a presença de alguém estranho no local, ele diz que não se acovardou. ''Não mexeu comigo, então beleza. Fiquei tranquilo. Certamente era algum tipo de pessoa que trabalhou ali e gostava muito do local'', avalia.
Fernando Cunha, funcionário do Teatro Guaíra desde 1956, também guarda na memória histórias de barulhos e fenômenos estranhos que assombravam o local nos anos 50, quando o complexo ainda estava em construção. O caso da morte de um dos operários, que caiu de um andaime, ajudou a sustentar os relatos de assombração na época. ''Dois operários fixavam as partes metálicas e o andaime desatou de um lado. Um se agarrou e o outro ficou pendurado gritando por socorro. Ele despencou de 30 metros de altura e morreu. Chamava-se Mikita'', recorda.
Segundo Cunha, até um ano e meio depois do acidente, quem passava pelos corredores do teatro escutava batidas de máquinas de escrever quando os escritórios estavam vazios, as portas batiam, luzes apagavam e acendiam sozinhas, além de uma orquestra de ferramentas quando não havia operários trabalhando. ''Na época que houve o acidente começou o inferno. Eu ficava ouriçado, era gurizão e acreditava naquilo. Imagina um piá de 16 anos dentro de 17 mil m2 ouvindo isso aí'', justifica.
Depois de queixas à diretoria, um guarda foi contratado para ficar no local à noite. O novo funcionário não durou muito tempo. ''Não aguento Fernando. Você não vê nada de dia? Estou com medo, quero voltar para a guarda civil'', revelou o guarda a Fernando Cunha. Mas, de acordo com Cunha, foi o vigia substituto que ficou mais assustado. ''Ele ficou perturbado. Um dia encontramos ele encostado na parede, sentado no corredor gaguejando: 'Aqui tem boi tatá, visagem, espírito. Estou maluco, não vou ficar nesse teatro. O Mikita me incomodou a noite inteira'. Depois ele fez uma fogueira com as próprias roupas, foi para um hospital e nunca mais o vi'', lembra Cunha.

mockup