HISTÓRIAS DA GUERRA - Lembranças de um tempo difícil
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terça-feira, 13 de novembro de 2007
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Quem mora na capital já deve ter visitado ou pelo menos passado perto do Museu do Expedicionário que exibe na praça em frente e no seu interior as relíquias da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Mas, além do combate dos pracinhas brasileiros em solo inimigo, a memória daquele período inclui também o dia-a-dia de quem ficou por aqui. E as dificuldades enfrentadas principalmente por aqueles que embora fossem brasileiros carregavam sobrenomes de origem alemã, italiana ou japonesa.
Filha de pai alemão, Hertha Kellermann, de 81 anos, não esquece da revolta que sentiu quando a família foi obrigada a entregar o aparelho de rádio à polícia depois que a Guerra começou. O que me magoou bastante na época foi ter que entregar o rádio. É como tirar hoje a televisão, o walkman ou equivalente da casa de um adolescente, compara. Herta ainda guarda na memória a cena do pai levando o aparelho embora. Quando ele virou a esquina eu chorei de dó.
Com a ajuda do vizinho Pedro Prosdócimo, comerciante da época que redigiu uma carta intercedendo pela família Kellermann, Herta foi até a polícia tentar resgatar seu rádio mas obteve um não categórico como resposta. Eu tinha 15 anos, não podia viver sem música. Isso eu não perdoei nunca, revela. De repente a casa silencia. Foi aquele não de cima para baixo. Quando eu vinha da rua a primeira coisa que eu fazia era ligar o rádio. Depois de encerrada a Guerra, Hertha conseguiu recuperar o aparelho, que exibe com orgulho até hoje.
No início da década de 40, Curitiba tinha 140 mil habitantes e milhares de imigrantes que haviam se instalado na cidade desde o final do século XIX. Depois dos torpedeamentos de navios brasileiros, atribuídos ao governo alemão, os nomes ligados aos países do Eixo em logradouros públicos foram substituídos, a língua portuguesa tornou-se obrigatória em todas as escolas e algumas indústrias e estabelecimentos comerciais passaram a sofrer restrições, além de apedrejamentos cometidos pela população.
Para Hans Klaus Garbers, de 83 anos, o período foi particularmente complicado. Em 1942, ainda jovem ele perdeu o pai, que era alemão, e os bens da família foram todos bloqueados pelo governo brasileiro. Eu era o primeiro brasileiro da família e tive que assumir toda a responsabilidade, lembra. Ele conta que, para driblar as restrições, muitas famílias originárias dos países do Eixo buscavam enfatizar sua descendência de etnias neutras. Alemão durante a guerra virou suíço, ressalta.
Mas mesmo poloneses ou holandeses acabavam tendo que se explicar nas delegacias locais porque eram confundidos com os imigrantes de origem alemã. Hertha lembra de um episódio em que seus pais foram chamados a prestar esclarecimento à polícia depois que uma ligação telefônica de sua casa foi identificada como uma conversa em alemão. Era a sogra da minha irmã falando holandês e eles acharam que era alemão, afirma.
Por causa da proibição de falar os idiomas dos países do Eixo, Hertha lembra que o pai evitava tirar de casa a filha mais nova. Minha irmã queria andar de bonde com meu pai e ele não levava porque ela falava alemão, explica. Gargers também recorda de um episópio muito comentado na época no qual duas senhoras judias foram levadas à delegacia porque conversavam em idish na rua. O idioma havia sido confundido com o alemão. As reuniões de grupos de estrangeiros e descendentes foram proibidas, os clubes das etnias do Eixo foram fechados e o clima era de apreensão. Tinha que ter cuidado para não ser delatado e para não levantar suspeita, lembra Garbers.


