Eu estava de volta. Logo depois da festa em minha casa, fui obrigado a me retirar da cidade por alguns dias. Fora enviado ao Sul extremo para cobrir um conflito. O que deveria durar apenas uma semana acabou por se prolongar por meses ou anos. Era para ser o contrário, mas a saudade de Lucia me impediu de contabilizar por quanto tempo eu ficara fora. Durante esse tempo, trabalhei sem interesse, relatando as mortes, as decisões políticas, as mazelas do povo como meros anacronismos (a estranheza da terra, guardei para mim). Cada gesto alheio, eu presenciava como um sinal da espera de Lucia. Não via hora de revê-la. Estranhamente, ela não respondia minhas cartas.
Desembarquei e tomei uma condução para casa. Antes de entrar, passei no comércio ao lado de casa para comprar água, pão, café e uma peça de presunto. O tempo ali não parecia ter passado. O dono da venda me reconheceu, mesmo por trás da barba cerrada. Indagou coisas que respondi sem sorrir. Guardara estes para Lucia. Antes de entrar em casa, tive ainda a impressão de tê-la visto na janela, como no dia em que conversara com Bio. O vento frio dissipou o pensamento.
Subi; tomei banho; comi; meus gestos eram mecânicos. Pensei no quanto pensara em Lucia enquanto estivera fora: eram repetições, repetições, repetições... Imaginara por meses aquele momento que vivia, pensando em todas as combinações possíveis de como ele sucederia. Decidi telefonar à casa de Lucia para avisar que estava na cidade. Ela prometeu me visitar, mas só no final da tarde. Tentei ler enquanto esperava; o máximo que consegui foi folhear um volume de Beckett que prenunciava o que estava por vir.
Por sorte, não esperei em vão. Preparei café para nós. Quando Lucia tocou a campanhia, meu corpo se agitou por inteiro; não posso esconder que o que senti pode ser chamado felicidade. Beijou-me antes que eu falasse, mas no rosto (ainda guarda o mesmo respeito de antes, pensei). Perguntou-me como estava e disse que não poderia se prolongar: alguém a esperava lá embaixo. Vi pela janela, a mesma de há tempos, que Bio estava impaciente enquanto segurava uma criança de colo.
Quando ela saiu, um livro estava aberto sobre a mesa de centro; fora Lucia quem o deixara; era o poema de Blake; li-o. Não sem terror, resignação e medo, entendi que o intruso era eu, não Bio. O corpo estranho sempre fora eu. Lucia nunca fora a minha namorada, nunca fizera planos comigo, nunca me esperara durante o tempo que estive fora; todas estas coisas eram dedicadas a Bio. Nossa pouca intimidade, que eu interpretava como respeito, era um sinal que não percebi. Na verdade, o vulgar era eu. Lucia nunca me amara e tinha pena de mim; eu confundira esta pena com afeto. No dia da festa em minha casa, era Bio quem deveria levá-la para casa. Entendi que o mundo produz duplicidades (embora eu não entenda estas terríveis simetrias); que o ser humano é monstruoso como as feras e que viver, para muitos, é um destino atroz.

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