HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Bio era o apelido de Fabrício Adolpho Caeser desde a infância, quando nos conhecemos. Era uma contrição de seu nome (bricio, bicio, bio) nascida no seio familiar. Era um homem vulgar como o apelido assumido por ele, como suas roupas; vulgar até no modo como falava. Nunca cheguei a considerar Bio um amigo; nunca fomos rivais. Conheço a sentença que diz que um homem acaba por assemelhar-se a seus inimigos (ou algo perto disso), no entanto nunca a considerei verdadeira.
Bio era de boa família; ele não. Estava sempre em nosso meio. Frequentava nossas festas, nossos círculos literários, nossos cafés de final de tarde. Como não poderia deixar de ser, estava na festa de recepção de um cineasta francês que estava na cidade por aqueles dias. A festa era em minha casa (me arrependi de tê-la oferecido; eu nunca gostei de cinema ou cineastas). Bio falou um francês exemplar; citou livros. Lucia se divertia com outras mulheres; não recordo do que falavam. Certo momento, olhou-me e sorriu. Reconheci, com ambição, ternura na combinação de seus dentes a mostra e olhos semi-cerrados.
Bio se aproximou de mim. Sua segurança na fala, nos gestos, no sorrir, produziam em mim uma inveja cega (uma inveja que não queria sentir, mas que não procurava evitar). Era como se em certos momentos eu quisesse assumir a posição de Bio, mesmo ele me dando asco. Falou de
Lucia em um tom que me pareceu demasiado elogioso. Perguntou se eu havia percebido como ela desabrochara; falava como se a elogiasse para si mesmo; contou uma história nossa de infância. Eu não consegui seguir sua história; não havia entendido seus elogios a Lucia. Com um ar de quem falara algo sem importância, continuou a conversa indagando se eu conhecia aqueles versos de Blake sobre tigres; respondi que sim. Ele me pediu que os achasse na biblioteca. Entendi aquilo como uma forma de me tirar da sala. Para não ser indelicado, fui. Sabia onde estava o livro, fui direto até ele. Estranhamente, não estava lá. Procurei rapidamente. Não encontrei. Tudo o que não era Lucia, e até a literatura, entediava-me.
Na sala, as pessoas pareciam se divertir. Passei os olhos e não encontrei Lucia. A roda em que estava com outras mulheres já havia se dissipado. Tive ódio; este me fez esquecer de Bio e Blake. Circulei, primeiro com os olhos, para ver se a encontrava. Ela estava na outra sala, a de jantar, perto da janela. Sorria. Aproximei-me e percebi que Lucia conversava com Bio. Pouco antes de eu chegar, tive a impressão de que ele lhe afagava os cabelos; não pude me certificar, pois passaram em minha frente. Quando cheguei, não se calaram.
Falavam de uma notícia banal. Bio me perguntou sobre o livro. Respondi, cordialmente, que não o encontrara. "Outro momento passo para buscá-lo", disse Bio. "Qual livro?", cortou Lucia. Bio lhe explicou a história. "Ah...", respondeu ela, colocando a mão sobre o ombro dele. Ainda falamos coisas que minha mente não consegue recordar quando Lucia anunciou que iria embora. "Eu a levo", disse Bio, dirigindo-se a ela e ignorando a minha presença. "Também vou", completei, com a face em chamas.


