HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Eu sempre amei Lucia. Amei Lucia ainda depois do dia em que ela disse que não poderia se demorar muito conversando comigo. Não sei o que desse amor e conversa influiu em minha vida, em meu modo de sorrir ou de ler. Na escola, eu arrepiava todo quando tocava sua mão para pegar emprestada a borracha (eu não tinha borracha); ela não percebia. Eu sonhava com seus dedos finos, o pescoço magro, o ventre reto - com os pequenos seios que começam a surgir. O duro nome dela -
Lucia - era pronunciado como um portenho o faria, como o acento agudo no "i" e não no "u", como é comum em português; de modo então que demorei a descobri que se dizia Lucía e não Lúcia.
Parecia errado que este nome de velha lhe fosse destinado; parecia que as letras articuladas do nome não poderia pertencer àquela menina quase mimada, vestida de renda, doce, educada; quase um clichê ou uma personagem. Eu não percebia isso. Eu amava Lucia desde antes de começarmos a namorar.
Quando ainda nem pegava em sua mão, já fazíamos planos: a) terminar o curso; b) casar na igreja; c) mudar para a casa grande de vovó, que logo iria morrer; d) ter um monte de filhos. Eu prometia que me tornaria jornalista, culto, autor de livros argentinos (acreditava na proeza da mediocridade que eu escrevia); Lucia me dizia que gostaria das coisas da moda, que decoraria a casa com margaridas e que serviria chá em xícaras do início do século. Seríamos felizes, em nossos planos: uma felicidade sólida, burguesa, perto da família, amparada.
Ao sinal de qualquer empecilho, eu prometia: "Lucia, você vai ver, um dia ainda seremos muito felizes; nos casaremos e teremos filhos; só eu te posso trazer alegria". Eu não percebia a monstruosidade de meus dizeres; eu... que sempre amei Lucia. Tudo o que não era Lucia me entediava. Nossos planos seguiam em linha reta. Tudo se encaminhara: eu me tornara jornalista; Lucia estudara francês.
Seguimos nosso namoro. Os tempos eram outros. Não nos beijávamos em público; falávamos sempre à distância; não nos permitíamos a intimidades na frente das pessoas. Em pouco tempo nos casaríamos,
Lucia e eu.


