HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de maio de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Saco meu revólver quando alguém diz que prefere música "de raiz". "Zezé di Camargo é um lixo. Dupla sertaneja de verdade é Pena Branca e Xavantinho", costumo ouvir por aí. Balela! Duvido que essas figuras tenham sequer um disco de qualquer um deles em casa.
O mesmo vale para o samba. Como se o ziriguidum-telecoteco-balacobaco não fosse o resultado de inúmeras misturas. Samba de raiz, meu filho, nem na África mais profunda!
Nada contra os sons mais puros. E tudo contra os puristas de butique, que não querem se comprometer na rodinha dos amigos "inteligentes". Daqui a pouco vão inventar o funk carioca de raiz. Aliás, já inventaram. Ou quase. Porque sempre tem algum mané pronto para ensinar que "o funk de verdade surgiu nos Estados Unidos".
Neste mundo cada vez menor, a informação cultural vai, vem e se renova com mais facilidade do que a gripe suína. Buscar a pureza, portanto, é tarefa para os arqueólogos. Mas se você quiser, tudo bem, está valendo. Do DJ superstar ao sanfoneiro cego da calçada, o negócio é se expressar do jeito que for. Essa é a beleza do pós-tudo.
Só não me venha com patrulhas. Como fizeram, por sinal, os organizadores do São João de Caruaru (PE), uma das maiores festas populares do Brasil. Em busca de uma essência perdida, ou algo que o valha, expulsaram da programação os grupos de "forró estilizado" (aquele mais pop, eletrônico, de massa).
Quem quiser tocar no evento, a partir de agora, que se endireite: a ordem é pegar leve nas letras de conotação sexual e resgatar canções dos mestres do passado. Nada de "arte degenerada", como gostava de dizer aquele sujeito de bigodinho que não curtia judeus. O nome disso, minha gente, é ditadura cultural.


