Lembro como se fosse ontem. Cheguei de surpresa, sem avisar ninguém da minha visita. O cachorro foi meu cúmplice, fingiu que não me viu, não deu nenhum latido e apenas balançou o rabo. Fui abrindo o portão com cuidado, para não fazer muito barulho, mas mesmo assim anunciei minha chegada.
Já pra dentro do portão, quase chegando na casa, ela apareceu na porta. Nunca vou me esquecer desse momento. O rosto cheio de alegria, surpresa da minha chegada e os abraços abertos para um abraço gostoso, macio, apertado. Enfim, abraço de vó.
Naquele dia precisava ficar por pouco tempo. Jamais imaginei que aquela seria a última vez. Ela se sentou ao meu lado, ficou me observando falar ao telefone, queria ficar perto e eu não percebi. Se soubesse que aquela seria a última vez, teria abraçado mais, teria assistido com ela o último capítulo da novela Chocolate com Pimenta, teria comido todo o pinhão e o bolo para não fazer desfeita, teria insistido para ela fazer o bolinho com o espinafre que ela colhia no quintal. Não percebi, nem quando dei tchau do portão.
Dias depois tive que voltar, mas não fazia nenhum sentido. Tive que a encontrar escondida das enfermeiras, sem trocarmos uma única palavra, nem ao menos dizer adeus. Já se vão cinco anos. Ela pegou todo mundo de surpresa. Deixou a casa toda arrumada e uma saudade imensa, que jamais vai passar.

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