Sempre foi sozinho no mundo. Não conheceu os pais, nem parente algum. Cresceu num orfanato. Quando saiu, teve que se virar. Nunca foi de fazer amigos, pois achava que todos o abandonariam, como fez a mãe.
Emprego de carteira assinada, só conseguiu um. Ficou três meses, o tempo da experiência. Como não se adaptou à rotina, saiu. Vivia de bicos. Um conserto aqui, uma grama para cortar ali. Como o dinheiro era pouco, às vezes precisava de um empréstimo. Quando não conseguia pagar, mudava de cidade.
Pode-se dizer que morou em vários locais diferentes. Era bom, ficava longe da rotina, que o afligia, e também dos credores, que o perseguiam.
Namoradas, teve. Não muitas e nem por muito tempo. Casar, não casou. Não era bom em manter relacionamentos duradouros.
Quase nunca pensava na família e em como teria sido a vida se não tivesse sido abandonado. Um dia, passou a pensar. Foi quando uma assistente social bateu à sua porta. Um irmão o estava procurando. "Nunca tive irmão", pensou. E disse que não tinha interesse. A assistente deixou o endereço do parente, caso mudasse de ideia.
Como uma mosca persistente, a lembrança da visita não o deixava em paz. Tentava espantar, mas não conseguia. Até que se decidiu. Iria atrás do irmão. Se não se acertasse, era só mudar de cidade.
O local era deserto. Encontrou a casa com a porta aberta. Foi entrando. Encontrou um homem que não parecia nada com ele, mas, ao mesmo tempo, lhe lembrava alguém que já havia conhecido.
"E aí, ‘maninho’, tudo bem?" A voz, o sorriso de desdém, os dentes amarelos... Lembrava algo, "o quê, meu Deus?". "Tá lembrado de mim, não?", disse o irmão, que não era irmão coisa nenhuma. Lembrou! Bem que ele tinha prometido não perdoar a dívida. Tentou fugir. A última coisa que ouviu foi um grito seco. Quem gritava? Caiu no chão. Sangrava. Parecia um tiro. Tudo vermelho. Tudo escuro. Será que a mãe o encontraria agora?

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