HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Ellen Taborda<br> Equipe da Folha 
Sempre foi sozinho no mundo. Não conheceu os pais, nem parente algum. Cresceu num orfanato. Quando saiu, teve que se virar. Nunca foi de fazer amigos, pois achava que todos o abandonariam, como fez a mãe.
Emprego de carteira assinada, só conseguiu um. Ficou três meses, o tempo da experiência. Como não se adaptou à rotina, saiu. Vivia de bicos. Um conserto aqui, uma grama para cortar ali. Como o dinheiro era pouco, às vezes precisava de um empréstimo. Quando não conseguia pagar, mudava de cidade.
Pode-se dizer que morou em vários locais diferentes. Era bom, ficava longe da rotina, que o afligia, e também dos credores, que o perseguiam.
Namoradas, teve. Não muitas e nem por muito tempo. Casar, não casou. Não era bom em manter relacionamentos duradouros.
Quase nunca pensava na família e em como teria sido a vida se não tivesse sido abandonado. Um dia, passou a pensar. Foi quando uma assistente social bateu à sua porta. Um irmão o estava procurando. "Nunca tive irmão", pensou. E disse que não tinha interesse. A assistente deixou o endereço do parente, caso mudasse de ideia.
Como uma mosca persistente, a lembrança da visita não o deixava em paz. Tentava espantar, mas não conseguia. Até que se decidiu. Iria atrás do irmão. Se não se acertasse, era só mudar de cidade.
O local era deserto. Encontrou a casa com a porta aberta. Foi entrando. Encontrou um homem que não parecia nada com ele, mas, ao mesmo tempo, lhe lembrava alguém que já havia conhecido.
"E aí, maninho, tudo bem?" A voz, o sorriso de desdém, os dentes amarelos... Lembrava algo, "o quê, meu Deus?". "Tá lembrado de mim, não?", disse o irmão, que não era irmão coisa nenhuma. Lembrou! Bem que ele tinha prometido não perdoar a dívida. Tentou fugir. A última coisa que ouviu foi um grito seco. Quem gritava? Caiu no chão. Sangrava. Parecia um tiro. Tudo vermelho. Tudo escuro. Será que a mãe o encontraria agora?


