O cachorro está cansado. Quando respira, na sua barriga surgem ossos. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não se lembra de passado; não imagina futuros. Não tem mágoa, trauma; não sofre. Não tem ternura, afeto; não ama. Para o cão só existe o momento.
O cão está encolhido em um canto. O chão está molhado. O cão está encostado em uma parede verde clara. A parede está descascada, velha; tem mofo espalhado por ela. Camadas de tintas de outros tempos surgem por debaixo da tinta verde. O cão não percebe. Está encolhido no canto. A água molha o cão. O cão não se incomoda. O tempo está abafado, úmido; é verão.
Homens suam, fumam, bebem cerveja no quintal. Homens falam, riem, choram na varanda. O cão não entende. O cão está encolhido no canto, debaixo da parede de há tempos. A costela do cão surge quando ele tosse. Quando respira, também ficam evidentes suas doenças na pele. O cão tem sarna; o pêlo ralo, gasto. São micoses, são verrugas, são feridas. O cão as lambe.
O cão não sabe. Com a pata traseira, coça uma região entre a própria pata traseira e a barriga. A coceira passa. O cão fecha novamente os olhos. Está deitado em um canto há muito tempo. Depois ele se levanta e late. Late, late. Come um pedaço de gordura que lhe jogam. Tosse. Late.
O cão volta a se deitar, dessa vez perto de um vaso de samambaia. As folhas tocam sua ferida. Ele bate na folha. Ela se mexe. Volta para o mesmo lugar. O cão não se incomoda. Já está dormindo.
Um dos homens se levanta. Pega uma ripa encostada no pilar. Ela tem um prego na ponta. Os homens riem. Ele espera um tempo e atira a madeira contra o cão. Não acerta o cão, mas o assusta. O cão sente medo, terror. Ele se contrai, levanta-se rápido, as patas flutuam; agita-se; corre dois metros. Ameaça latir, ameaça morder. Tosse. Tosse. Coça a micose. Lambe-se. Esquece.
O cão está cansado. Deita-se. Quando respira, sua barriga vira costela. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não recorda passados; não ilude futuros. Não tem mágoa, miséria, trauma. Não tem ternura, remorso, afeto. O cão existe.

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