HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de março de 2009
Rosiane Correia de Freitas<br> Equipe da Folha 
Meu vô era um senhor sério, objetivo. Logo criança, perdeu a mãe. Poucos anos depois perdeu o pai e ficou sob a guarda da madrasta. Por motivos nunca claramente explicados nos anais da família, acabou na rua, vivendo de bico. Virou lavador de pratos. Graças ao apoio do meu bisavô, pai da minha avó, voltou a estudar, se formou matemático.
Casou com vovó ainda moço. Foi diretor da Escola Técnica da Rede Ferroviária Federal. Criou dois filhos, um matemático e um físico. Diz meu pai que ele não era tão bondoso com os filhos quanto foi para os netos. Foi juiz de xadrez, vice-campeão brasileiro de tênis de mesa.
Era membro de um clube com o curioso nome de Mói-vidro do qual sei pouco, ou quase nada. Mas conta a história que o nome se devia a um efeito que vovô sabia aplicar na bola de tênis de mesa que fazia com que ela mudasse de direção, desarmando o adversário. Numa disputa de sets, vovô teria aplicado o golpe num amigo, que perdeu o equilíbrio e caiu sobre uma estante cheia de potes de conserva, levando tudo ao chão.
Quando éramos crianças, vovô costumava nos chamar para ajudá-lo a montar uma sequência interminável de cestas de Natal e de Páscoa que ele distribuia sabe-se lá para quem. Diabético, ele costumava roubar uma mordida dos bombons que nos dava. E sempre tinha no armário uma outra guloseima para pregar peça nos mais incautos. Eram chicletes que manchavam a boca de azul, balas apimentadas, copos que vazavam quando a gente tentava beber o refrigerante.
Vovô andava sempre de terno marrom ou cinza e uma indefectível capanga de couro horrorosa de feia - vamos falar a verdade. Volta e meia viajava nos fins de semana para ir pescar com os amigos e voltava para Curitiba cheio de peixes que minha mãe limpava e preparava segundo as instruções dele. Também adorava fazer bacalhau com tomates, azeitonas, temperado no vinho branco. E feijoada caprichada com dezenas de tipos de carne cozida na panela de barro.
Depois de dois derrames, consequência da diabetes e de outros problemas de saúde, vovô morreu no Hospital Evangélico. Semanas depois a família se juntou na casa de vovó para separar e arrumar os pertences pessoais dele, um ritual próprio da nossa forma de lidar com a morte.
No quarto dos fundos da casa, onde a maior parte dos pertences dele (e como vovô guardava coisas) estava, tinha de tudo. Medalhas, livros, ferramentas, jogos de pneu para a Kombi, um motor de popa, selos, papéis antigos.
No meio desse tesouro, uma caixa ainda fechada chamou a atenção. Era um kit de facas ginsu, aquelas que cortavam de tudo, até calçados e latas de refrigerantes (muito embora eu ache difícil imaginar em que situação alguém iria precisar fazer isso).
De tudo que vovô deixou, aquela caixa é que mais tem significado para mim. No fim das contas, a gente nunca sabe o quanto realmente conhece alguém. Depois de anos de convivência, de brincadeiras, de intimidade nunca é possível determinar que tipo de facas ginsu a pessoa pode estar escondendo no armário.


