HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de março de 2009
Rosiane Correia de Freitas<br> Equipe da Folha 
Tem uma conhecida minha que vive com dor no peito. É uma ameaça de infarto que existe há anos, sem que nunca a morte certa tenha dado as caras. A dor que aflige minha amiga começa com a uma reclamação discreta: "ai, que dor". Assim, como quem não quer nada.
Mais um pouco e ela solta um: "não estou me sentindo bem". E, por fim, evolui para: "acho que estou infartando". As pessoas que já convivem com ela adquiriram um certo ceticismo de quem cansou de esperar Godot. Normalmente, avisam: "pode ficar tranquila que, se você morrer, a gente chama um médico".
Ou reclamam: "mas, logo hoje que eu estava planejando ir embora mais cedo?" Ao que ela responde: "um dia vou morrer e vocês vão ficar com a consciência pesada".
Mas, tem sempre alguém que, novo no pedaço, ainda se impressiona com o teatro. "A senhora está bem? Quer que chame um médico? Posso lhe oferecer um copo de água?", apressam-se em dizer. São crianças ingênuas, incapazes de reconhecer na futura defunta os sinais de que o perigo ainda está longe.
Eis que, em tempos de crise, muitas empresas adquiriram o hábito de minha colega. Correram a colocar a mão no peito, gritar de dor, anunciar a morte próxima, iminente. A despeito da aparência saudável, para não dizer opulenta, de alguns setores.
Todo dia, é só abrir o jornal para ver o mais novo moribundo do pedaço: vendas de carro caíram 5%, lucros dos bancos despencam 20%, setor metalúrgico demite milhares. É o noticiário do fim do mundo. Mas, fico sempre lembrando: e aquele lucro de bilhões acumulado nos últimos cinco anos? E o aumento crescente nas vendas?
Isso só prova que economia é uma daquelas ciências confusas, quase esotéricas, que ninguém parece dominar com precisão. Coisa de bruxo, de mancomunado com o diabo. Talvez sejam eles os especialistas em mercado, os grandes males da economia moderna. Na hora de socorrer as empresas, tratem os financistas, os consultores.
Sugiro uma terapia de choque: que se submeta essa gente a viver com um salário mínimo por um ano. Choque mesmo. Choque de realidade. De viver na base de um dia por vez. De ver a carne virar um sonho distante só porque a bolsa caiu, o dólar subiu e o preço disparou.
No fim das contas, se esse pessoal não aprender nada, pelo menos, vão se tornar capazes de tolerar melhor as dores. E, talvez, não sejam tão rápidos em levar a mão ao peito quando a coisa apertar novamente em um futuro não muito distante.


